quinta-feira, 27 de setembro de 2018

O Veneno dos índios Monhongons


AMAZONIA: CURIOSIDADES

O Veneno dos índios Monhongons

O rio Branco é formado pelos rios Tacutu e Uraricoera. Este, por sua vez, depois de receber as águas do Parime e do Amajari, pela margem esquerda, bifurca-se formando os Paranás de Santa Rosa e Maracá. Nesse trajeto, abraça uma porção de terra (ilha), de mais de cinquenta quilômetros de extensão. Deixando esta ilha o Uraricoera retoma o nome e segue seu curso até as nascentes, após acolher na parte norte e já para deixar a ilha, o rio Uraricaápará, seu afluente da margem esquerda. Nessa grande ilha que ficou sendo conhecida por ilha do Maracá, habitaram, há menos de uma centena de anos passados, os índios Monhongons, mencionados por J. Barbosa Rodrigues, em sua obra “O MUIRAQUITÁ” .
Primitivamente, a região nomeada pela designação de Rio Branco, foi povoada por inúmeras tribos, sendo as mais notáveis, além daquela, as dos Athoraius, Uapichanas, Uaiumarás, Jaricunas, Iporocotós, Macuxis  e outros. Belicosos, cada tribo dispunha dos próprios meios de defesa e ataque ao inimigo, como também de recursos para abater a caça ou o pescado.
Usavam arco e flechas, de tacapes, de pedras de arremesso e de fortes cacêtes. Entretanto, os Monhongons eram possuidores do segredo da preparação de violentos venenos, o Urari e o Uaruá, tinham sobre os seus contendores a vantagem de poder ferí-los mortalmente, mesmo à distância. Essas duas espécies de venenos, que têm a propriedade de atacar a rede nervosa do organismo, ficaram sendo conhecidas por uma única denominação: - CURARE – que lhes servia para mezinhas, arma de ataque como também para uso nas caçadas, de vez que o efeito venenosos inoculado no animal desaparece depois de curada a caça, para o que os índios se servem de uma espécie de alga chamada ORINDUEI, da qual extraem o suco que empregam como contraveneno.
No ser humano, entre os civilizados, o antídoto é o sal de cozinha, falhando algumas vezes quando não se faz a sua aplicação com a devida urgência.
O Curare, de efeito rápido, é tratado após a sua extração de determinadas espécies vegetais, em panelas de barro, e logo pronto, acondicionado em pequenas cabaças, baldes, cuiupis ou uai na língua Macuxi. Nessas diminutas vasilhas endurece e torna-se compacto, aderindo tão fortemente que não é fácil desprega-lo. Quando os Monhongons queriam dele se utilizar, umedeciam-no levemente e esfregavam, também levemente, a pontinha da flecha, que ficava impregnada do precioso veneno.
Os Monhongons, em vez de lançarem o veneno a pequena distancia, como as serpentes, o faziam chegar a muitos metros, com a certeza de não errarem o alvo. Como a peçonha dos ofídios, o Curare era igualmente empregado para fins terapêuticos. A sua aplicação em dose reduzida era um poderoso calmante da dor e como tal era empregado pelos Monhongons, na cura de dores de dentes e oculares, e de outras moléstias que requeriam imediata cessação.
Para usá-lo como arma de combate ou em caçadas, os índios  serviam-se de uma taboca ou cana, de mais ou menos dois metros de comprimento, perfeitamente nivelada, dentro da qual introduziam uma pequena flecha que tinha na extremidade um pedaço de lã de algodão ou penas de pássaros, apelidada por eles de zarabatana.
O índio soprava na entrada da taboca, impulsionando a flecha com tanta velocidade que dentro de segundos, o animal de caça ou o homem, atingido pela flecha caia ao solo.
Combatidos tenazmente por varias tribos que não conheciam o segredo da preparação do Curare, mas sofriam com os efeitos do veneno, os Monhongons foram tão perseguidos que tiveram de abandonar seus aldeamentos na ilha do Maracá, refugiando-se no rio Auini, afluente do Parágua, na Venezuela, mas o rio onde por muitos anos residiram ficou conhecido como rio URARICÓERA, ou rio do veneno.






Notas:
1. Todos os antigos tratados de medicina, segundo a opinião de Anton Zischka, citado também por Tasso vieira, na mesma obra, “recomendam por exemplo, a pele de serpente como remédio contra reumatismo, e cabeças de cobras, reduzidas a pó fino, como sedativo para muitas dores.
Durante muito tempo a ciência qualificou estas prescrições de superstições absurdas. Mas, em 1929, quando em Cuba, um leproso foi picado por uma serpente das mais venenosas, começou-se a aprofundar as velhas receitas e, desde então, cura-se com veneno de cobra”. “Este leproso sofrera dores atrozes; chegara ao último período da moléstia e não passava de uma mísera massa de carne em decomposição.
Mal a cobra o mordeu cessaram as dores.
Informado do fato, um médico de Nova Iorque, o Doutor Monaclesser, iniciou as experiências. O Professor Calmete, do Instituto Pasteur, deu-lhe o seu apoio, e em consequência, estudou-se rigorosamente o efeito sedativo do veneno das cobras”.

2.- TACUTU = abreviatura de ITACUTU, que significa: - Itá = pedra; Catu = bonita
URARICOERA ou URARICUERA: - Urare = Veneno; Coera = velho, extinto







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