quinta-feira, 27 de setembro de 2018

A Fuga do seringueiro Gonçalo


Amazonia: Ciclo da Borracha
Lutas, sonhos e dramas humanos


A Fuga do seringueiro Gonçalo

Agora isso não lhe rende nem o preço de uma passagem de terceira classe, para se libertar daquele cativeiro!...foram os últimos pensamentos do Gonçalo
Nisto um grito partido de bordo interrompeu seus pensamentos:
- Largar!
- É o mestre, dando ordem ao marinheiro para desatar a *espia que prende o navio ao tronco de um **cumarú, no barranco. Segurando a ponta da corda, o marinheiro desce o barranco e embarca pela prancha, agora único ponto de ligação do navio com a terra. Empertigado na proa, o piloto aciona o relógio de comando, num tilintar de campainha, logo repetido na sala das máquinas.
Outra ordem:
- Recolhe a prancha!
Apagam-se os holofotes. No barranco, agora completamente às escuras, apenas o vulto de Gonçalo, a respiração ofegante, a alma torturada pelo desespero de não poder partir. Dois marinheiros aproximam-se do ***portaló e, lentamente, começam a puxar a pesada prancha.
De repente, num pulo gigantesco, de cima do barranco, Gonçalo atira-se em direção a enorme viga de madeira, cuja extremidade, já afastada da terra, oscila sobre a profundeza do rio. Milagrosamente, escapou de um mergulho, mas na queda feriu a cabeça. Com a mão no ferimento, levanta-se e entra, correndo, pelo portaló, ante os olhares surpresos dos dois marinheiros, que supõem tratar-se de algum passageiro retardatário. Por sorte era hora do jantar e a sua presença não foi notada. Cautelosamente desceu ao porão e ocultou-se entre as pelas de borracha.
Na manhã seguinte, subiu ao convés e pediu pra falar com o comandante. Conduzido até o camarote, chamou a atenção de todos o enorme hematoma em sua testa.
- Que foi isso rapaz? - pergunta-lhe o comandante.
Com sua franqueza característica, Gonçalo responde:
- Uma queda, na prancha, quando eu fugia, esta noite.
- Fugia? ...Mas fugia por quê?
Tirando a carta do bolso, entrega ao comandante e pede:
- Voismecê leia, por favor!
De sobrolho carregado, o comandante começa a ler a carta.
Ao terminar, seu semblante já se modificara num ar de comiseração:
- Compreendo seu drama, rapaz. Mas você me coloca em má situação. Sou amigo do seu patrão. Se eu soubesse ontem do ocorrido, não traria você de maneira nenhuma. O que eu devia fazer, agora, era desembarca-lo no barranco, para obriga-lo a voltar ao seringal!. Mas estamos longe demais. Doze horas de viagem, rio abaixo...
Faz uma pausa e continua:
- Com certeza, ficou devendo ao patrão e resolveu fugir. Não foi isso?
Com firmeza na voz, Gonçalo replica:
- Absolutamente, seu comandante. Vi minha conta. Não tirei saldo, mas tô quites com o patrão. Não devo nada!
- Ainda bem! Tranquiliza-se o comandante. – Mas, então, porquê fugiu?
- Não aguentei a saudade. Nessa carta, minha mãe pede que eu vá. Além de doente, ela tem setenta anos. Eu temi não encontrar mais a velhinha com vida!...Por isso, lhe imploro: não me deixe no barranco! Não tenho com quê pagar a passagem. Mas tenho saúde, posso ser útil, baldeando o convés, ajudando a lavar prato, na copa!
E o comandante pondera:
- Pense bem rapaz. Você é novo e forte. Seria mais acertado voltar para o seringal, trabalhar mais um ou dois anos e, ai sim, ir embora, levando um bom saldo.
- E a minha velhinha espera? E se ele morrer, de que tamanho vai ser o meu remorso?  Além disso, minha noiva também tá lá!
- Ah! Existe também uma noiva¿ Logo ví!... Rabo de saia é coisa muito séria!...
- Mas, não é só a saudade das duas que me flagela a alma....
- E há mais?
- Ora! e a saudade do meu Ceará?
Então o comandante zomba:
- Ora o Ceará!... De quando em vez, vem a seca e mata tudo de fome... De que você tem saudade, rapaz?
E o cearense num desabafo:
- De tudo: da terra, do roçado, do gado, da criação. Saudade do aboio triste dos vaqueiros, do choro das violas, soluçando nas noites de lua... Saudade até do sol, daquele sol de rachar, daquele sol malvado que seca até a água das lagoas, só pra ver até onde resiste a coragem do nordestino!
- E se vier outra seca? - pergunta o comandante.
- Se vier, paciência!
E conclui:
- o apego do cearense ao Ceará é igual a amor de mulher que apanha do marido: abandona a casa, chorando, se lastimando. No dia seguinte, a saudade aperta e a coitada volta, embora saiba que vai apanhar de novo!

NOTA:
*Espia = Cabos de atracação do barco, podendo ser chamados de lançantes, espringues e través, dependendo do ponto de amarração na embarcação.
**Cumaru = árvore de grande porte, da família das Leguminosas, é nativa da América do Sul e tem folhas alternas, flores aromáticas e frutos ...
***Portaló - abertura no casco de um navio, ou passagem junto à balaustrada, por onde as pessoas transitam para fora ou para dentro, e por onde se pode movimentar carga leve.

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