quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Chico Arigó rumo a Belém do Pará


AMAZONIA: Fatos e histórias
Por: Professor Chagas


Chico Arigó rumo a Belém do Pará
Na saída de Fortaleza, ainda no hangar do aeroporto, a maior dificuldade que Chico Arigó sentiu foi um grande aperto no coração, uma angústia, um misto de incerteza e dúvida. Dúvida se estava fazendo a coisa certa. Incerteza quanto ao que encontraria pela frente. Uma força empurrava para a frente e outra puxava para trás. O espírito de aventureiro convidava para mergulhar no desconhecido, mas o coração apertado recomendava cuidado.

Quando a aeronave pousou em Belém, no aeroporto militar, aí surgiu outra dificuldade para Chico Arigó, pois teria que se dirigir ao aeroporto civil com duas malas. Foi aí que apareceu um taxista enviado de Deus e perguntou-lhe: quer taxi moço, ao que respondeu um pouco acanhado: Precisa não, meu amigo, eu só vou ali para o aeroporto grande. Aí o bom taxista insistiu: eu levo o senhor até lá. Então Chico Arigó tentou ser mais convincente dizendo: eu estou com pouco dinheiro e vou para muito longe..., mas o motorista, compreendendo a dificuldade do viajante, insistiu com generosidade: precisa preocupar-se não, eu não vou lhe cobrar essa corrida não.

Já no aeroporto, após verificar que a passagem que foi comprada em Fortaleza – no crediário – não havia sido transmitida, Chico Arigó ficou feito bobo, ou mesmo o próprio Arigó, com duas malas na mão andando de um lado para o outro do aeroporto. Foi aí que surgiu o bom vigilante Sebastião, que ao vê-lo naquela situação vexatória, lhe interpelou: O senhor vai viajar a que horas? Ao que Chico Arigó respondeu: bom meu amigo, eu acho que as seis mas até agora não tenho passagem. Ouvindo isso o bom vigilante, sugeriu-lhe: porque não guarda essas malas no guarda-volumes.. Neste momento, Chico Arigó pensou rápido e concordou com o vigilante. Você tem toda razão. Eu vou guardar essas malas no guarda-volumes. Aí ficou fitando o vigilante, sem coragem de perguntar onde ficava esse tal de “guarda-volumes”.
Novamente o vigilante lhe acudiu. Você vai lá em cima, na livraria e compra uma ficha para guardar as suas malas. Mas nada de informar onde ficava o tal de guarda-volumes. Mas aí novamente, o anjo da guarda da viagem deu um jeito. Tocou no coração do bom vigilante e convenceu-o a ajudar mais. Então ele disse: - Suba lá na livraria, compra as fichas que eu vou com você no guarda-volumes e lhe ajudo a colocar as suas malas lá dentro.
Pronto, que alívio. Chico Arigó suspirou e pela primeira vez agradeceu a Deus, pois teve certeza de que a mão de Deus estava lhe protegendo. Foi à livraria comprou a ficha e voltou. Juntou-se ao bom Sebastião e foram lá guardar as benditas malas no guarda-volumes.
Guardadas as malas, de mãos vazias, agradeceu a Sebastião e retornou ao balcão da empresa aérea para verificar se sua passagem já havia chegado. Recebeu uma negativa e ficou desolado, pois o tempo passava e naquele momento faltava mais ou menos umas duas horas e meia para a saída do seu voo com destino a Manaus.
As duas próximas horas foram de angustia, pois Chico Arigó sentia-se de mãos atadas, sem poder fazer nada. Viu chegar as 17 horas, as 17:30horas e nada de passagem. Finalmente as 18:00horas e o anuncio do embarque. Pronto, ficou para trás. Só lhe restou procurar o bom amigo Sebastião e lhe comunicar que teria perdido o voo, pois a passagem não chegou.
Sebastião ao ver o amigo desolado, se solidarizou e ainda informou que sentia muito não poder ajudar e que naquele momento estava deixando o seu turno e voltando para casa. Ainda recomendou que o amigo procurasse um hotel para passar a noite. Chico Arigó, abriu o seu coração e revelou: ¨meu amigo eu não posso me dar o luxo de ir para hotel pois o dinheiro que eu carrego é muito curto e ainda falta muito para o final da minha viagem. Vou ter que passar a noite mesmo aqui nesse aeroporto. Amanhã essa passagem vai chegar e eu viajarei.
E assim sucedeu, o amigo foi embora, os voos saíram, o aeroporto ficou vazio e restou a Chico Arigó telefonar para a esposa e comunicar que ainda estava no aeroporto de Belém pois a passagem não havia chegado. Feito isso, sentou-se numa poltrona e pensou: e agora, o que eu vou fazer durante toda essa noite, sem ter onde tirar um cochilo. Lembrou-se que nunca na vida tinha passado uma noite sem uma rede sequer para repousar o corpo. Pensou no conforto da sua casa. Pensou que poderia ter desistido dessa viagem ainda no dia anterior lá em Fortaleza. Por último, lembrou-se que naquele dia ainda não tinha comido nada. Fez um balanço do dia e concluiu que tinha tido mais dificuldades do que facilidades. De repente sentiu falta de uma pessoa para trocar ideias, para compartilhar as dificuldades que estava passando. Aí novamente pediu a Deus paciência e orientação para continuar a luta da viagem.
Ocorreu-lhe a seguinte ideia: como não tinha com quem conversar, que tal conversar consigo mesmo, exercitando ouvir a consciência. Mas teria que personificar essa consciência. Foi aí que lhe veio a inspiração. Lembrou-se que acabara de se formar professor. Então decidiu: a voz da consciência será identificada como professor e caminhará comigo até o final dessa viagem. E assim começou a proceder. Chico Arigó perguntava para a consciência através do professor e as respostas da consciência teriam o efeito de dar uma direção mais tranquila para as dificuldades que fossem surgindo.
A primeira decisão que tomou foi a de procurar comer alguma coisa, pois afinal, tanto Chico Arigó como o professor concordaram em que não dava para continuar sem se alimentar. Dirigiram-se ao restaurante, pediram o menu e se depararam com pratos caros que o orçamento não suportava. Porém, um prato os chamou atenção, pois era oferecido na forma de casal e na modalidade de meio prato, cabendo no orçamento. Esse prato se chamava PATO NO TUCUPÍ. Após a refeição, o estomago reagiu mal e adveio uma diarreia que obrigou Chico Arigó a passar a noite correndo para o banheiro. Com bom humor, o professor lembrou que esse fato não era de todo ruim, pois obrigava Chico Arigó a ficar ocupado a noite toda.
E assim foi passando a noite até amanhecer o dia. As 5 horas da manhã Chico Arigó resolveu ir ao Mercado Ver - o - Peso para conhecer. Tomou um ônibus que saia do aeroporto e ao entrar no coletivo deparou-se com muitos pescadores que além de equipados com traias de pesca, usavam um perfume muito forte. Indagou ao professor o que seria aquele cheiro esquisito ao que o mesmo disse também não conhecer. O fato foi que em função do cheiro forte, Chico Arigó passou a vomitar. Colocava a cabeça para fora das janelas do ônibus e vomitava. Só que como não tinha mais nada no estomago, nada expelia somente líquido. Chegando ao mercado, teve um choque de realidade: deparou-se com um enorme parque temático comercial, localizado à margem da Bahia de Guajará, com cores e cheiros diferentes; gentes e palavreados esquisitos. Perambulou pelas instalações do grande mercado a céu aberto, ouviu muitas ofertas de comidas, como açaí, tacacá, tucupí, cupuaçu, patauá e outras iguarias mas não quis experimentar nada. Após ouvir a opinião do professor, achou melhor retornar ao aeroporto e lá tomar um simples café.
Tomado o café com pão, sentiu-se mais confortável e preparou-se para aguentar o resto do dia na esperança de que a sua passagem fosse finalmente transmitida. A partir daquele momento, sem nada para fazer, Chico Arigó então passou a observar o movimento das aeronaves na pista do aeroporto. De onde estava podia conferir o pouso e o levantar voos de pequenas aeronaves com muita frequência. Aquilo lhe chamou atenção ao ponto de convocar o “professor” para ajudar a dirimir a sua dúvida: estariam aquelas pequenas aeronaves transportando pessoas para os bairros da cidade? Ao que o professor aconselhou:
- Melhor será nós irmos procurar o amigo Sebastião que a esta hora já assumiu o seu plantão, para que o mesmo nos tire essa dúvida. Pronto, fomos os dois a procura do nosso bom amigo vigilante que nos recebeu com muita simpatia. Feita a consulta veio a resposta providencial.
- Meu amigo essas aeronaves transportam pessoas para os garimpos que estão funcionando por aqui por perto da capital, inclusive o garimpo de Serra Pelada. Era a primeira vez que Chico Arigó e o professor ouviam a expressão “ garimpo de Serra Pelada”.
As 16 horas finalmente a passagem chegou e as 18 horas  os dois embarcaram para Manaus, sem antes darem um abraço bem apertado no bom e generoso vigilante Sebastião que com seu modo simples, prestou uma grande contribuição ao pobre aventureiro que ainda tinha muito chão pela frente.

Notas:
Na próxima publicação convidamos você a viajar com Chico Arigó e o professor de Belém a Manaus.

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