AMAZONIA: Fatos e
histórias
Por: Professor Chagas
Chico
Arigó rumo a Belém do Pará
Na
saída de Fortaleza, ainda no hangar do aeroporto, a maior dificuldade que Chico
Arigó sentiu foi um grande aperto no coração, uma angústia, um misto de
incerteza e dúvida. Dúvida se estava fazendo a coisa certa. Incerteza quanto ao
que encontraria pela frente. Uma força empurrava para a frente e outra puxava
para trás. O espírito de aventureiro convidava para mergulhar no desconhecido,
mas o coração apertado recomendava cuidado.
Quando
a aeronave pousou em Belém, no aeroporto militar, aí surgiu outra dificuldade
para Chico Arigó, pois teria que se dirigir ao aeroporto civil com duas malas.
Foi aí que apareceu um taxista enviado de Deus e perguntou-lhe: quer taxi moço,
ao que respondeu um pouco acanhado: Precisa não, meu amigo, eu só vou ali para
o aeroporto grande. Aí o bom taxista insistiu: eu levo o senhor até lá. Então
Chico Arigó tentou ser mais convincente dizendo: eu estou com pouco dinheiro e
vou para muito longe..., mas o motorista, compreendendo a dificuldade do viajante,
insistiu com generosidade: precisa preocupar-se não, eu não vou lhe cobrar essa
corrida não.
Já no aeroporto, após
verificar que a passagem que foi comprada em Fortaleza – no crediário – não
havia sido transmitida, Chico Arigó ficou feito bobo, ou mesmo o próprio Arigó,
com duas malas na mão andando de um lado para o outro do aeroporto. Foi aí que
surgiu o bom vigilante Sebastião, que ao vê-lo naquela situação vexatória, lhe
interpelou: O senhor vai viajar a que horas? Ao que Chico Arigó respondeu: bom
meu amigo, eu acho que as seis mas até agora não tenho passagem. Ouvindo isso o
bom vigilante, sugeriu-lhe: porque não guarda essas malas no guarda-volumes..
Neste momento, Chico Arigó pensou rápido e concordou com o vigilante. Você tem
toda razão. Eu vou guardar essas malas no guarda-volumes. Aí ficou fitando o
vigilante, sem coragem de perguntar onde ficava esse tal de “guarda-volumes”.
Novamente o vigilante lhe
acudiu. Você vai lá em cima, na
livraria e compra uma ficha para guardar as suas malas. Mas nada de informar
onde ficava o tal de guarda-volumes. Mas aí novamente, o anjo da guarda da
viagem deu um jeito. Tocou no coração do bom vigilante e convenceu-o a ajudar
mais. Então ele disse: - Suba lá na livraria, compra as fichas que eu vou com
você no guarda-volumes e lhe ajudo a colocar as suas malas lá dentro.
Pronto, que alívio. Chico
Arigó suspirou e pela primeira vez agradeceu a Deus, pois teve certeza de que a
mão de Deus estava lhe protegendo. Foi à livraria comprou a ficha e voltou.
Juntou-se ao bom Sebastião e foram lá guardar as benditas malas no
guarda-volumes.
Guardadas as malas, de mãos
vazias, agradeceu a Sebastião e retornou ao balcão da empresa aérea para
verificar se sua passagem já havia chegado. Recebeu uma negativa e ficou
desolado, pois o tempo passava e naquele momento faltava mais ou menos umas
duas horas e meia para a saída do seu voo com destino a Manaus.
As duas próximas horas foram
de angustia, pois Chico Arigó sentia-se de mãos atadas, sem poder fazer nada.
Viu chegar as 17 horas, as 17:30horas e nada de passagem. Finalmente as
18:00horas e o anuncio do embarque. Pronto, ficou para trás. Só lhe restou
procurar o bom amigo Sebastião e lhe comunicar que teria perdido o voo, pois a
passagem não chegou.
Sebastião ao ver o amigo
desolado, se solidarizou e ainda informou que sentia muito não poder ajudar e
que naquele momento estava deixando o seu turno e voltando para casa. Ainda
recomendou que o amigo procurasse um hotel para passar a noite. Chico Arigó,
abriu o seu coração e revelou: ¨meu amigo eu não posso me dar o luxo de ir para
hotel pois o dinheiro que eu carrego é muito curto e ainda falta muito para o
final da minha viagem. Vou ter que passar a noite mesmo aqui nesse aeroporto.
Amanhã essa passagem vai chegar e eu viajarei.
E assim sucedeu, o amigo foi
embora, os voos saíram, o aeroporto ficou vazio e restou a Chico Arigó
telefonar para a esposa e comunicar que ainda estava no aeroporto de Belém pois
a passagem não havia chegado. Feito isso, sentou-se numa poltrona e pensou: e
agora, o que eu vou fazer durante toda essa noite, sem ter onde tirar um
cochilo. Lembrou-se que nunca na vida tinha passado uma noite sem uma rede
sequer para repousar o corpo. Pensou no conforto da sua casa. Pensou que
poderia ter desistido dessa viagem ainda no dia anterior lá em Fortaleza. Por
último, lembrou-se que naquele dia ainda não tinha comido nada. Fez um balanço
do dia e concluiu que tinha tido mais dificuldades do que facilidades. De
repente sentiu falta de uma pessoa para trocar ideias, para compartilhar as
dificuldades que estava passando. Aí novamente pediu a Deus paciência e
orientação para continuar a luta da viagem.
Ocorreu-lhe a seguinte ideia:
como não tinha com quem conversar, que tal conversar consigo mesmo, exercitando
ouvir a consciência. Mas teria que personificar essa consciência. Foi aí que
lhe veio a inspiração. Lembrou-se que acabara de se formar professor. Então
decidiu: a voz da consciência será identificada como professor e caminhará
comigo até o final dessa viagem. E assim começou a proceder. Chico Arigó
perguntava para a consciência através do professor e as respostas da
consciência teriam o efeito de dar uma direção mais tranquila para as
dificuldades que fossem surgindo.
A primeira decisão que tomou
foi a de procurar comer alguma coisa, pois afinal, tanto Chico Arigó como o
professor concordaram em que não dava para continuar sem se alimentar. Dirigiram-se
ao restaurante, pediram o menu e se depararam com pratos caros que o orçamento
não suportava. Porém, um prato os chamou atenção, pois era oferecido na forma
de casal e na modalidade de meio prato, cabendo no orçamento. Esse prato se
chamava PATO NO TUCUPÍ. Após a refeição, o estomago reagiu mal e adveio uma
diarreia que obrigou Chico Arigó a passar a noite correndo para o banheiro. Com
bom humor, o professor lembrou que esse fato não era de todo ruim, pois
obrigava Chico Arigó a ficar ocupado a noite toda.
E assim foi passando a noite
até amanhecer o dia. As 5 horas da manhã Chico Arigó resolveu ir ao Mercado Ver - o - Peso para
conhecer. Tomou um ônibus que saia do aeroporto e ao entrar no coletivo
deparou-se com muitos pescadores que além de equipados com traias de pesca,
usavam um perfume muito forte. Indagou ao professor o que seria aquele cheiro
esquisito ao que o mesmo disse também não conhecer. O fato foi que em função do
cheiro forte, Chico Arigó passou a vomitar. Colocava a cabeça para fora das
janelas do ônibus e vomitava. Só que como não tinha mais nada no estomago, nada
expelia somente líquido. Chegando ao mercado, teve um choque de realidade:
deparou-se com um enorme parque temático comercial, localizado à margem da Bahia de Guajará, com cores e cheiros diferentes; gentes e
palavreados esquisitos. Perambulou pelas instalações do grande mercado a céu
aberto, ouviu muitas ofertas de comidas, como açaí, tacacá, tucupí, cupuaçu, patauá e outras iguarias mas não
quis experimentar nada. Após ouvir a opinião do professor, achou melhor
retornar ao aeroporto e lá tomar um simples café.
Tomado o café com pão,
sentiu-se mais confortável e preparou-se para aguentar o resto do dia na
esperança de que a sua passagem fosse finalmente transmitida. A partir daquele
momento, sem nada para fazer, Chico Arigó então passou a observar o movimento
das aeronaves na pista do aeroporto. De onde estava podia conferir o pouso e o
levantar voos de pequenas aeronaves com muita frequência. Aquilo lhe chamou
atenção ao ponto de convocar o “professor” para ajudar a dirimir a sua dúvida:
estariam aquelas pequenas aeronaves transportando pessoas para os bairros da
cidade? Ao que o professor aconselhou:
- Melhor será nós irmos
procurar o amigo Sebastião que a esta hora já assumiu o seu plantão, para que o
mesmo nos tire essa dúvida. Pronto, fomos os dois a procura do nosso bom amigo
vigilante que nos recebeu com muita simpatia. Feita a consulta veio a resposta
providencial.
- Meu amigo essas aeronaves
transportam pessoas para os garimpos que estão funcionando por aqui por perto
da capital, inclusive o garimpo de Serra Pelada. Era a primeira vez que Chico
Arigó e o professor ouviam a expressão “ garimpo de Serra Pelada”.
As 16 horas finalmente a
passagem chegou e as 18 horas os dois
embarcaram para Manaus, sem antes darem um abraço bem apertado no bom e
generoso vigilante Sebastião que com seu modo simples, prestou uma grande
contribuição ao pobre aventureiro que ainda tinha muito chão pela frente.
Notas:
Na próxima publicação convidamos você a viajar com
Chico Arigó e o professor de Belém a Manaus.
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