Amazônia: Ciclos Econômicos
Mudança de ciclo e improvisação
Uma
luta íntima trava-se na alma do caboclo, ante o terrível dilema: seu dever de
marido exige que ele não se afaste da cabeceira da esposa, cujo estado se
agrava pelo prolongado sofrimento; por outro lado, seria desumano não correr em
auxílio do filho, àquela hora, talvez, em grande perigo, arriscando a vida para
zelar o nome do pei, preso ao compromisso do contrato.
Zé
Ricardo não hesita. Entra no quarto, aproxima-se da cama e diz, à meia voz:
-
Zabel tenho muita pena de deixa você, agora, nesse estado. Mas não posso perde
essa chuva. O igarapé deve está de repiquete e a madeira boiando. Preciso ir
ajuda o Pedro. Sozinho, o menino não dá conta do serviço. Entre gemidos, a
mulher responde:
-
Sim Ricardo. Estava me lembrando disso. Tenho medo que aconteça algum mal ao
meu filho. Vai com Deus!
Zé
Ricardo faz algumas recomendações à parteira. Em seguida, vai à cozinha, enche
a poronga(*) de querosene e o rifle de bala, arregaça as calças e sai.
Fora,
a escuridão é completa. A chuva continua torrencial. Do terreiro alagado, o
aguaceiro despenha-se, roncando nas grotas, e vai avolumar, lá em baixo, a
caudal do repiquete. Qual ininterrupta fuzilaria, os trovões ribombam, e a luz
dos relâmpagos clareia a mata, pondo revérberos azulados na estria d’água dos
caminhos.
Indiferente
a tudo, com o pensamento no filho e na madeira, Zé Ricardo segue apressadamente,
marginando o barranco do igarapé.
E,
tropeça aqui, numa raiz submersa, escorrega ali, numa pôça do caminho, lá vai
ele: chasp, chasp, chasp e chasp, -
ritimando a marcha com o roçar das calças encharcadas de lama.
Após
duas horas de caminhada, quase chegando ao taperi, ouve pancadas de machado. De
mistura com o ruído da chuva na folhagem, as machadadas lhe chegam nitidamente
aos ouvidos.
Quem
estaria rachando lenha, àquela hora da noite, debaixo de tamanho temporal¿
Impelido pela curiosidade, Zé Ricardo não anda, corre. Entra no taperi. Está
vazio. Apenas a rede de Pedro e seu mosquiteiro, oscilando ao vento. E as
machadadas continuam fortes, para o lado do igarapé. Atormentado por terrível
pressentimento, Zé Ricardo corre naquela direção. De cima do barranco avista,
lá embaixo, a luzinha de um farol e o vulto esguio do filho seminu sobre enorme
tronco que atravessa o igarapé e que ele luta por cortar, a golpes de machado.
-
Que foi isso menino¿ - grita Zé Ricardo.
Reconhecendo
a voz do pai, Pedro responde lá de baixo:
-
Uma bruta samaumeira que o vento derribou, fechando o igarapé.
Zé
Ricardo não se enganara em seu pressentimento.
-
Já vou lá! – diz para o filho. Volta ao taperi, traz outro machado e desce o
barranco. Só então pode avaliar as proporções do desastre. Com as raízes em uma
das margens e os galhos esbagaçando a canarana da margem oposta, a gigantesca
samaumeira obliquoamente sobre o igarapé. A calcular pela parte que emerge, o
tronco deve medir dois metros de diâmetro. Próximo dalí, detidos pelo obstáculo
daquela barreira, os vinte toros flutuam, cercados de detritos e garranchos que
a enxurrada vai trazendo.
Não
há tempo a perder. A chuva já diminuira de intensidade. Por baixo da samaumeira,
a água escoa rapidamente. Urge desimpedir a passagem, antes que a vazante
impossibilite a passagem dos toros. Perdida aquela oportunidade, não restará
mais esperança...
O
inverno está no fim. Ficando no leito do igarapé, exposta ao sol durante o verão,
a madeira resseca e se desvaloriza na safra do ano seguinte. Zé Ricardo tira a
blusa e empunha o machado, disposto a salvar o produto do seu trabalho, que a
natureza se obstina em lhe querer roubar. Durante mais de duas horas, pai e
filho lutam como dois titâs. Em golpes certeiros, os machados sobem e descem,
alternadamente, ferindo o grosso tronco, donde arrancam lascas que a correnteza
leva. De quando em vez, param para descansar um pouco e amolar os ferros. Por
volta de meia noite, apenas metade do tronco está cortado. E a vazante já é bem
sensível.
Zé
Ricardo começa a desanimar. Examina mais detidamente a posição da árvore. Está
firme em ambas as margens. O nível dágua, descendo sempre, apenas molha a face
interior. Mergulhar os toros por baixo da árvore, é impossível. Há porém, ao
lado do barranco, oculto pela folhagem, um intervalo maior, formado pela
bifurcação de um galho que se ergue em arco. Não é muito larga esta abertura,
mas com algum esforço, talvez dê passagem aos toros.
Resolvem
experimentar. Afinal, tudo se resume em vencer a força da correnteza e guiar
cada toro para passar entre o galho e o barranco.
Cortados
os ramos e parasitas que vedavam a abertura, amarram o primeiro toro à
extremidade de forte cabo e puxam com força, de cima do barranco. Assim
impelido, em direção à margem, o toro passou rente ao barranco e transpôs a
apertada garganta. Graças àquele processo, o trabalho marcha com relativa
rapidez. Nove toros já passaram e deslizam, igarapé abaixo.
-
Peça bonita! – elogia ele – Aguano de respeito! Aquilo tem de ser classificado
em primeira. E não dou por menos dum conto de reis!
Amarram
o toro e puxam , de cima do barranco. Desta vez, porém, o trabalho se complica.
A cada esforço renovado, os bíceps entumescem, o cabo retesa, mas não cede uma
polegada. O enorme toro pesa muito; aos puxões, foi se metendo entre os outros
e está preso.
Esgotada
a paciência, Pedro resolve ir lá.
-
Aguenta o cabo aí pai! – diz ele. E, rápido, girando o corpo em interessante
cambalhota pula nágua e atravessa o igarapé. Em seguida, trepado sobre o grande
toro, à guisa de canoa, consegue, aos poucos, ir afastando os outros, que lhe
impedem a passagem.
De
cima do barranco, Zé Ricardo se esforça por acompanhar os movimentos do filho.
Na escuridão da noite, apenas distingue seu vulto, de pé, em cima do toro, que
deslisa lentamente.
Em
dado momento, no meio do igarapé, a correnteza atinge o toro em cheio. Num
supremo esforço para detê-lo, Zé Ricardo vai arrastado até a borda do barranco.
Não pôde mais. O cabo escapou-lhe das mãos, e o toro livre de obstáculos,
arremessa-se vertiginosamente em direção à sumaumeira. Vendo o perigo, Pedro
tenta pular, mas escorrega na casca limosa e vai arrastado pelo turbilhão. Zé
Ricardo ouviu apenas um grito e a pancada do toro de encontro à árvore. Com o
choque, o farol virou. A luz bruxoleou um instante e tudo ficou em completa
escuridão.
Desorientado,
sem enxergar nada, chama pelo filho, repetidas vezes. Nenhuma resposta. Rápido,
o caboclo risca o fósforo e acende o farol.
Ao
lado da samaumeira, o enorme toro flutua. Do menino, nem sinal. Naquele trecho,
o igarapé tem umas cinco braças de profundidade. Mas Zé Ricardo é mergulhador
afamado. Nas pescarias, está acostumado a ir desenganchar a tarrafa presa,
presa às tronqueiras, no fundo do lago infestado de cobras e jacarés. Para
salvar o filho, desceria ao fundo do inferno, se preciso fosse. Não hesita. De
cabeça para baixo, atira-se à água e desaparece.
Duas
vezes volta à tona. Respira e torna a mergulhar. Afinal, emerge resfolegando
fortemente. Nadando com um braço, traz no outro o corpo inerte do filho.
Deita-o sobre a relva do barranco e só então verifica seu deplorável estado.
Ao
escorregar, o infeliz rapazinho fora arrastado pela violência da correnteza e
horrivelmente imprensado entre o pesado toro e a samaumeira. Várias costelas
estão fraturadas, e o externo, afundado pela forte compressão, realça o volume
do ventre cheio d’água. No auge da aflição, Zé Ricardo não sabe o que fazer.
Chama pelo filho, levanta-lhe os braços, arreia a cabeça. Com esses movimentos,
o menino começa a vomitar a água que engoliu na prolongada imersão. Aliviado o
ventre, entreabriu os olhos.
Zé
Ricardo enche-se de esperança. Coloca o farol bem perto de seu rosto e chama-o
mais alto:
-
Pedro! Pedro!...meu filho. O doente parece ouvir. Solta um gemido abafado e os
lábios se movem, num grande esforço para falar. Debruçando-se sobre ele, com o
ouvido colado à sua boca. Zé Ricardo ouve apenas as seguintes palavras, quase
imperceptíveis:
-
Pai...água...foi...foi...embora...ain...ainda...falta...passar...onze...to...
Não
pôde dizer mais nada. Da boca entreaberta, um filete de sangue escorreu sobre a
palidez do rosto. Abriu os olhos e fitou o pai, demoradamente, um olhar
expressivo, misto de ternura e saudade.
Está
morto. Transido de dor, Zé Ricardo abraça-se ao cadáver do filho. Durante
minutos, seus soluços ecoam no silêncio da noite.
A
barraca mais próxima distava dali uma hora de viagem. Zé Ricardo lembrou-se de
ir lá, pedir ao seringueiro que o ajude a cavar a sepultura. Receia, porém, que
em sua ausência, alguma onça devore o corpo de seu filho. Resolve leva-lo para
casa. Dar-lhe-á mais condigna sepultura no pequeno jardim que a sua mulher
cultiva, ao lado da cozinha. Vai ao taperi, envolve o cadáver no mosquiteiro e,
sobraçando tão precioso fardo, ruma para casa.
Da
tempestade resta ainda um chuvisco persistente, engrossando aqui e ali, pelos
borrifos das árvores, agitadas pelo vento. Completamente molhado, a roupa
colada ao corpo, Zé Ricardo caminha sem parar, indiferente a tudo.Quem o visse
tão apressado, àquela hora da noite, conduzindo um volume que ele aperta
avaramente contra o peito, toma-lo-ía por um malfeitor, um ladrão que fugia
pela mata, levando o produto do roubo.
Pelo
caminho, o pobre caboclo pensa em sua infelicidade, sem compreender porque
motivo Deus o castiga tão impiedosamente. Sempre procedeu bem. É justo e
honesto. Vive de seu trabalho. Nunca fez mal, nunca prejudicou ninguém. Por
que, então a justiça divina lhe arrebata seu querido filho, seu amiguinho, seu
braço-direito¿ ... Por que¿
Depois
lembra-se da mulher. Como estará ela¿ Coitada! Como vai sentir a morte do
filho!...E começa a imaginar uma desculpa para ocultar-lhe a grande desgraça,
até o fim do resguardo.
Já
os primeiros alvores avermelham o nascente, quando Zé Ricardo chega ao aceiro
do roçado e avista sua barraca. Contornando-a por trás da cozinha, pisa
cautelosamente e vai esconder o corpo do filho no taperi do defumador. Em
seguida, aproxima-se da escada e para, com o pé no primeiro degrau, sem ânimo
de subir.
É
preciso ver a mulher, é preciso mentir e ele não tem coragem, porque nunca mentiu. Não é uma
simples mentira passageira. Durante dias terá que sofrer em silêncio; terá que
carpir, sozinho, a saudade do filho; mentir, fingindo-se alegre, para que a
esposa de nada suspeite....
Debruçado
ao corrimão da escada, Zé Ricardo sofre horrivelmente. Um choro de
recém-nascido chama-o à realidade. Ergue a cabeça. Não se contém. De um pulo
galga o soalho da barraca e entra no quarto. Com a admirável dedicação que só
as mães sabem ter, Isabel, mal avista o marido, pergunta pelo filho.
Zé
Ricaro titubeia. Afinal, a muito custo, a mentira sai: resolvera mandar o
Pedro, em um dos rebocadores, até a foz do Tarauacá, afim de assistir a medição
da madeira. A embarcação estava de saída e o menino não teve tempo de vir em
casa, despedir-se. Foi a melhor desculpa que pôde arranjar para justificar a
ausência do filho. Passada a fase do resguardo, a mãe saberá toda a verdade.
-
E a madeira do igarapé, saiu toda? Pergunta Isabel.
-
Toda – responde laconicamente Zé Ricardo. E, para mudar de assunto:
-
Onde está o nenê?
-
É home! – informa a velha parteira, aproximando-se com um pequeno volume de
panos e cueiros, onde se destaca o rostinho rosado de uma criança. Zé Ricardo
toma o filhinho nos braços e aperta-o carinhosamente contra o peito,
exclamando:
-
Vai se chamar Pedro!
-
Pedro?... – estranha Isabel.
-
Prá quê dois Pedros em casa?
Visivelmente
perturbado, Zé Ricardo apressa-se em improvisar uma explicação:
-
Sim, mas o outro...é Pedro. Este será Pedrinho...p’rá diferençá. E baixa a
cabeça, para que a mulher não veja duas grossas lágrimas que lhe rolam pela
face.
Amanhece.
A chuva passou de todo. Para o lado do poente, trovões longínquos ainda
denunciam restos da borrasca, que se afasta. Algumas praias abaixo da pequena
barraca, nove toros de águano chegam, vagarosamente, à foz do igarapé. Nos
dorsos cilíndricos, rebrilhantes aos primeiros raios de sol, duas iniciais,
gravadas a machado: J.R.
Devagar,
um após o outro, os toros desembocam no igarapé, fazem algumas voltas na água
barrenta do remanso e prosseguem, sem destino, rio abaixo...
Notas:
1 – Em “As riquezas da Bruzundanga” Lima Barreto já
relatava em 1919, o fim do ciclo da borracha dessa forma...
A riqueza mais engraçada da Bruzundanga é a borracha. De fato, a árvore
da borracha é nativa e abundante no país. Ela cresce em terras que, se não são
alagadiças, são doentias e infestadas de febres e outras endemias. A extração
do látex é uma verdadeira batalha em que são ceifadas inúmeras vidas. É cara,
portanto. Os ingleses levaram sementes e plantaram a árvore da borracha nas
suas colônias, em melhores condições que as espontâneas da Bruzundanga.
Pacientemente, esperaram que as árvores crescessem; enquanto isto, os
estadistas da Bruzundanga taxavam a mais não poder o produto.
Durante anos, essa taxa fez a delícia da província dos Rios. Palácios
foram construídos, teatros, hipódromos, etc.
Das margens do seu rio principal, surgiram cidades maravilhosas e os
seus magnatas faziam viagens à Europa em iates ricos. As cocottes caras
infestavam as ruas da cidade. O Eldorado...
Veio, porém, a borracha dos ingleses e tudo foi por água abaixo, porque
o preço de venda da da Bruzundanga mal dava para pagar os impostos. A riqueza
fez‑se pobreza...A província deixou de pagar as dívidas e houve desembargadores
dela a mendigar pelas ruas, por não receberem os vencimentos desde mais de dous
anos. Eis como são as riquezas do país da Bruzundanga.
Recortes
do Quinze de Raquel de Queiroz...
Encostado a uma jurema seca, defronte ao juazeiro
que a foice dos cabras ia pouco a pouco mutilando, Vicente dirigia a
distribuição de rama verde ao gado. Reses
magras, com grandes ossos agudos furando o couro
das ancas, devoravam confiadamente os rebentões
que a ponta dos terçados espalhava pelo chão.
Era raro e alarmante, em março, ainda se
tratar de gado. Vicente pensava sombriamente no que seria de tanta rês, se de
fato não viesse o inverno. A rama já não dava nem para um mês.
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Imaginara retirar uma porção de gado para a serra.
Mas, sabia lá? Na serra, também, o recurso falta... Também o pasto seca...
Também a água dos riachos afina, afina,
até se transformar num fio gotejante e
transparente. Além disso, a viagem sem pasto, sem bebida certa, havia de ser um
horror, morreria tudo.
Uma vaca que se afastava chamou a atenção do rapaz,
que deu um grito:
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Agora, ao Chico Bento, como único recurso, só restava
arribar. Sem legume, sem serviço, sem meios de nenhuma espécie, não havia de ficar
morrendo de fome, enquanto a seca durasse. Depois, o mundo é grande e no
Amazonas sempre há borracha...
Alta noite, na camarinha fechada que uma lamparina
moribunda alumiava mal, combinou com a mulher o plano de partida. Ela ouvia
chorando, enxugando na varanda encarnada da rede, os olhos cegos de lágrimas.
Chico Bento, na confiança do seu sonho, procurou
animá-la, contando-lhe os mil casos de retirantes enriquecidos no Norte. A voz
lenta e cansada vibrava, erguia-se, parecia outra, abarcando projetos e
ambições. E a
imaginação esperançosa aplanava as estradas
difíceis, esquecia saudades, fome e angústias, penetrava na sombra verde do
Amazonas, vencia a natureza bruta, dominava as feras e as visagens, fazia dele
rico e vencedor.
Cordulína ouvia, e abria o coração àquela
esperança; mas correndo os olhos pelas paredes de taipa, pelo canto onde na
redinha remendada o filho pequenino dormia, novamente sentiu um aperto de
saudade, e lastimou-se:
- Mas, Chico, eu tenho tanta pena da minha
barraquinha! Onde é que a gente vai viver, por esse mundão de meu Deus? A voz
dolente do vaqueiro novamente se ergueu em consolações e promessas:
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- Em todo pé de pau há um galho mode a gente armar
a tipóia... E com umas noites assim limpas até dá vontade de se dormir no
tempo... Se chovesse, quer de noite, quer de dia, tinha carecido se ganhar o
mundo atrás de um gancho? Cordulina baixava a cabeça. Chico Bento continuou a
falar. O animal trocado com Vicente chegava de manhãzinha. Iria nele até o Quixadá,
ver se arranjava as passagens de graça que o governo estava dando.
Recebendo o dinheiro do Zacarias da Feira, se
desfazendo da burra e matando as criaçõezinhas que restavam, para comerem em
caminho, que é que faltava? Nem trem, nem
comida, nem dinheiro...
Cordulina levantou-se para balançar o menino que
acordou chorando.
Era madrugada. Passarinhos desafinados, no pé de
turco espinhento do terreiro, cantavam espaçadamente. a barra do dia foi
avermelhando o céu. Os golinhas continuaram a cantar com mais força.
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A mulher enfiou a saia e o casaco e foi cuidar do
café.
Chico Bento ficou só. Tinha-se deixado estar na
rede, sentado, as mãos pendentes, descansando os pulsos nos joelhos, o
pensamento vagando numa confusa visão de boa
ventura e fortuna. Pouco a pouco, porém, com a luz
do dia que entrava pelas frinchas da camarinha, a névoa otimista foi-se adelmo;
e do projeto ambicioso só lhe ficou, triste e aguda, a melancolia do desterro
próximo.
Sonolenta, ainda, a meninada se levantava,
esfregando os olhos, espreguiçando-se em bocejos rasgados, em longas distensões
que lhes salientavam o relevo das costelas.
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