quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Muda o ciclo e a improvisação continua


Amazônia: Ciclo da Borracha
Lutas, sonhos e dramas humanos


Muda o ciclo e a improvisação continua

Essa é a história de uma situação que se repete na região amazônica. A sucessão de ciclos econômicos sem nenhuma política de governo, seja federal, seja estadual. Tem sido feito tudo na improvisação. Foi assim do ciclo da borracha para o madeireiro, do madeireiro para a agricultura, da agricultura para a pecuária e da pecuária para a soja. Estamos sempre enterrando uma economia e abrindo exploração de outra, tudo na base do mais absoluto extrativismo.

Acompanhem, pois a história desse seringueiro que deve vivido lá pelos idos de 30 e que viu o auge do ciclo da borracha e que ao findar aquele período foi impelido a explorar madeira, sem nenhum conhecimento e preparo, o que resultou em um grande desastre como se pode ver à frente.

Zé Ricardo abica a prôa da montaria no tijuco e pula em terra. Lá no céu, em longa e sinuosa fila, um bando de jaburus corta o espaço, rumo ao sul. Imóvel, franzindo o sobrolho o caboclo acompanha com a vista o voo dos pernaltas e resmunga:

- T’esconjuro, peste!

Depois, põe o remo no ombro e sobe o barranco, num choutinho miúdo.

Anoitece. Para o lado da nascente, algumas estrelas piscam por cima da mata, olhando a agonia do sol. Do terreiro da barraca, um cãozinho magricela corre ao encontro do dono, abanando alegremente a cauda. Zé Ricardo entra em casa sutilmente, para não fazer ruído.
Gemidos abafados vêm, a intervalos, do quarto vizinho, separado por frágil parede de bambú. A porta do quarto entreabre-se e deixa passar uma cabeça de velha, envolta na fumaça do cachimbo.

- Como vai ela, comadre?
- Drumiu uma madornazinha; acordou agora – respondeu a velha.
– Trôuve as encomenda?
Sem responder, Zé Ricardo entrega à velha parteira o que fora buscar no barracão: um pacote de alfazema, duas velas e um pequeno vidro com óleo de amêndoa.
- Na cozinha tem bóia feita: feijão e pirarucu – disse a velha, entrando para o quarto. Zé Ricardo não tinha fome. Tomas apenas uma xícara de café. Depois, corta tabaco, faz um cigarro e senta-se, fumando, à porta da barraca.

Numa visão retrospectiva, vários fatos de sua vida vão lhe desfilando pelo pensamento: sua mocidade no sertão nordestino; seu casamento na humilde capelinha da vila; o espetáculo dantesco da seca, aniquilando tudo; o êxodo da população sertaneja; a longa viagem para o Acre; o imundo gaiola repleto de emigrantes, subindo o Amazonas, o Juruá, o Tarauacá, até as cabeceiras dos últimos afluentes;  a chegada ao seringal; a luta do brabo no desalento dos primeiros meses, experimentando as surpresas da selva feroz e dominadora; o nascimento do primeiro filho, agora já quase rapazinho. Por um capricho da natureza, após longo intervalo de dezesseis anos, a mulher vai lhe dar outro filho. Um transtorno no ritmo de trabalho da pequena família.

Antes e extração do látex constituía a única ocupação do seringueiro. Mas com a crescente desvalorização da borracha, a vida tornou-se difícil, os saldos foram diminuindo e os débitos aumentando em cada fábrico.

Caboclo honesto, Zé Ricardo logo compreendeu a necessidade de recorrer a outra fonte de receita, para equilibrar as finanças e manter o conceito de seu nome. A extração de madeira, indústria incipiente, seduzia os seringueiros e estava desviando inúmeros braços, exaustos do trabalho improdutivo da borracha. Foi uma revolução, uma verdadeira febre de entusiasmo, abalando os velhos hábitos dos seringais. O comércio incrementou-se com a chegada de vários representantes de companhias exportadoras, disputando a primazia na compra de cedro e águano, madeiras abundantíssimas na região.

Zé Ricardo encorajou-se. Foi entender-se com um dos compradores e fechou contrato para vinte tóros. Por conta, recebeu certa importância em mercadoria. Grande estorvo, porém, logo surgiu: ocupados ele e o filho na extração da madeira, quem se encarregaria do trabalho da seringa¿ Abandonadas, mesmo por alguns meses, as estradas não tardariam a cerrar, invadidas pelo mato. Ademais, a nova indústria era apenas uma tentativa, visando compensar a baixa da borracha.

Confirmando os nobres predicados da mulher nordestina, Isabel ofereceu-se para substituir o marido e o filho no árduo trabalho da extração da seringa. Ela sozinha, tomaria conta das estradas. E, cada manhã, depois que Zé Ricardo e Pedro partiam para a mata, a corajosa mulher saía com o balde, rifle a tiracolo, e sumia na boca da estrada. Às vezes o Faísca, o esperto cãozinho que lhe servia de companhia, metia-se pela mata. Desaparecia. Daí a momentos ladrava longe, acuando alguma anta ou um bando de porcos selvagens.

Isabel interrompia o trabalho, deixava o balde com leite ao pé da seringueira e, guiada pelos ladridos, seguia cautelosamente, rifle em punho, bala na agulha, olhar atento. Um tiro reboava dentro da mata. O jantar daquele dia estava garantido. Ao anoitecer, os três regressavam à barraca. Enquanto Isabel preparava a refeição, Zé Ricardo defumava o leite que ela colhera. Na monotonia desse labor quotidiano, decorreram meses, até que o estado de Isabel, em adiantada gravidez, obrigou-a a ficar em casa.

A extração da madeira prosseguiu. Às vezes, Zé Ricardo desanimava ante o arrojo do seu empreendimento. Com a ajuda exclusiva do filho, receiava não poder cumprir o contrato. Vinte toros não era trabalho apenas para dois homens. Mas, estava endividado e com a palavra empenhada. Não podia retroceder. Para adiantar serviço, permutou alguns dias de trabalho com quatro rapazes, seus vizinhos, também madeireiros. Quando o inverno chegou, as árvores estavam roladas em toros, ainda dispersas no centro da mata. A derrubada era feita a machado. Não raro, os troncos estão circundados de sapupemas, espécies de cipós achatados, atingindo três e mais metros de altura.

É um estorvo. Aquelas excrescências duplicam a grossura da árvore. Derribá-la ao rés do chão seria trabalho exaustivo e inútil, de vez que as sapupemas são imprestáveis para toros de madeira. Recorre-se então ao mutá, espécie de jirau ou andaime de paus toscos, em roda do tronco, e que permite derribá-lo na haste, acima das sapupemas.

Feito o mutá, sobre ele se instalam os trabalhadores, equilibrando-se como podem. E os machados entram em ação, dias a fio. Golpes firmes, cadenciados por intervalos em que se ouve o ranger do gume no cerne. O suor escorre em bátegas pelas costas desnudas dos trabalhadores. Em dado momento, alguns estalos anunciam os primeiros estertores do gigante vegetal, ferido de morte pela lei da gravidade. Mais algumas machadadas, a árvore oscila, inclina-se para um dos lados.

Fugindo ao perigo de um esmagamento, os homens pulam do mutá e correm, enquanto o colosso tomba pesadamente ao solo, produzindo um grande ruído, que reboa longe, dentro da mata. Quem alí chegar, dificilmente reconhecerá o local. Em sua queda fragorosa, o águano arrasta as árvores adjacentes, cujos galhos estão entrelaçados nas alturas, ligados por fortes liames de cipós e parasitas. Onde, há pouco a floresta se ostentava exuberante e sombria, existe agora, uma enorme clareira sobre a qual o sol despeja jorros de luz.

Dir-se-ia que algum duende travesso e galhofeiro por ali passara, comprazendo-se em destruir tudo. Sob o montão desordenado de troncos partidos, galhos retorcidos, raízes arrancadas, o chão esburacado e coberto de gravetos e cavacos. E o gigantesco águano com a fronde mergulhada no travesseiro, jaz deitado naquele leito de ruinas, donde sob um cheiro forte de terra revolvida e folhas amarfanhadas.

Desgalhada a arvore, é o tronco dividido em toros de vinte ou trinta palmos. Começa então, a segunda fase, quiçá a mais difícil do trabalho: o arrastamento dos toros para o leito do igarapé. Alí aguardam o repiquete que os conduz ao rio, para serem entregues ao comprador. Nem sempre é possível encontrar madeira de lei à margem dos igarapés. Para o arrastamento dos toros, abrem-se grandes estradas, com oito ou dez metros de largura, numa extensão de um, dois ou mais quilômetros, conforme a distância da árvore ao igarapé mais próximo. Essas estradas parecem avenidas rasgadas no centro da floresta.

Derribada a mata, toda aquela larga faixa é desobstruída. Os troncos são aparados ao rés do chão e arrancadas todas as raízes que possam dificultar a passagem dos toros. Inicia-se o arrastamento, por meio de longos cabos de aço. Uma das extremidades do laço enlaça o toro, e a outra é presa no engenho, um carretel giratório movido pelo braço dos madeireiros.   

À proporção que o engenho roda, o cabo vai se enrolando no carretel e o toro marcha vagarosamente, empacando aqui, numa saliência do terreno, enganchando ali, numa raiz que escapou do machado. Atrás, vai deixando largo sulco, cavado no solo pela compressão do enorme peso. O trabalho é perigoso. As vezes, a um daqueles puxões, o cabo retesado parte-se, e a ponta, impelida com força, vai fustigar os operários, retalhando rostos, decepando membros.

Sentado à porta da barraca, Zé Ricardo continua absorto a fumar. Auxiliado apenas pelo filho, atrasara-se muito no serviço. Só em fins de março conseguir terminar o arrastamento da madeira. Atestando a pertinácia do seu esforço, vinte bonitos toros aguardavam água, no leito do igarapé. Aquilo representava sua liberdade econômica. Confiando na excelente qualidade dos toros, Zé Ricardo fazia cálculos. Pagaria a mercadoria recebida por conta do contrato, liquidaria seu débito com o patrão do seringal. E já planejava melhor safra para o ano seguinte, com uma numerosa turma de trabalhadores madeireiros, chefiada por ele.

Logo, porém, um grande receio desmorona seus planos: - E se não chover mais?...

Com a madeira ainda na mata, perdera as enchentes de janeiro, fevereiro e março. Abril deu apenas ligeiras enxurradas que não conseguiram, sequer, mover os toros. Em maio costuma haver boas chuvadas, para o repiquete do “lava-praia”. E assim sempre apelando para o dia seguinte, decorreu a primeira quinzena de maio, sem um pingo d’água.

Fitando o céu estrelado, na ânsia de vislumbrar algum sinal de chuva, Zé Ricardo lembrou-se do bando de jaburus que avistara, à tardinha, quando voltava do barracão. Jaburu é prenuncio certo de verão. E o pobre caboclo sofre, naquela noite...Sofre a preocupação de perder seu trabalho; sofre, ouvindo os gemidos da esposa, sua bôa e dedicada Isabel, no doloroso labor da maternidade; sofre, com pena do filho, o seu querido Pedro, dormindo na mata sozinho.

Como a barraca distava cerca de duas horas do local onde estava a madeira, Zé Ricardo fez um taperi no barranco e ali passou a dormir, em companhia do filho. Caso viesse alguma chuva, durante a noite, eles lá estariam, a tempo de aproveitar a água e guiar os tóros igarapé abaixo. Mas o estado de Isabel requeria a presença do marido em casa. Pedro foi obrigado a ficar só no taperi.

O coração do pai ficava preocupado. Uma fera podia atacar o rapazinho, durante o sono. Pedro era um filho muito especial. Tinha apenas dezesseis anos, mas possuía qualidades de um homem. Zé Ricardo costumava chama-lo, com orgulho, “o meu braço direito”. E ele merecia. Trabalhador, ativo, obediente e amigo do pai, jamais se queixara. Estava sempre disposto para os mais árduos serviços, a qualquer hora do dia ou da noite.

Abstraído nesses pensamentos, Zé Ricardo não notou uma grande nuvem, escura e pesada que subia da nascente. Aos poucos, uma aragem começou a soprar, sutil a princípio, depois mais forte, sacudindo a copa das árvores. Impelida pelo vento, em breve a nuvem cobria todo o céu, já riscado de relâmpagos, prenunciando uma borrasca iminente. A natureza amazônica preparara, com requintes de gala, mais um soberbo espetáculo da luta dos elementos. Não tardaram os primeiros pingos, fortes, pesados, como gotas de chumbo estalando sobre a palha da barraca.

E por fim, a chuva arreia, torrencial, em catadupa diluviana. Lufadas de vento, assobiando no beiral, penetrando pelas frinchas das paredes de paxiuba, atiravam borrifos d’água dentro de casa, molhando tudo. Esquecidas as tristes preocupações que há pouco, o acabrunhavam, Zé Ricardo não cabe em si, de contente. Aquele aguaceiro é a salvação de sua madeira, presa no fundo do igarapé. Aquela chuva foi enviada pelo céu para a sua redenção. Lembra-se no entanto, do filho, enfrentando sozinho na escuridão da noite, os perigos da tempestade e a fúria da correnteza, arrastando os toros.















Notas complementares:

Algumas imagens estão impregnadas no imaginário coletivo quando o assunto é a seca: o chão de terra enervado, o sol impiedoso e o homem magro. A desolação é o sentimento que prevalece nos primeiros momentos em que se encara a impiedosa força da natureza.


SECAS do Ceará
O Estado do Ceará tem sido palco de grandes estiagens, que dizimaram milhares de vidas, principalmente as pessoas mais pobres, os sertanejos em especial.
Seca de 1877 - A primeira grande seca que explode nesta “eufórica” Fortaleza é em 1877, demonstrando um grandioso problema social. A cidade é ocupada por sertanejos em número quase quatro vezes maior que a população.
É nesta seca que o desenvolvimento do capitalismo se defronta pela primeira vez com o fenômeno. Os saques eram constantes, a polícia era convocada para intervir nos tumultos. As ruas da cidade de repente ficaram cheias de pedintes e doentes.
Rodolfo Teófilo, farmacêutico e escritor, publicou no livro A Fome o relato de Fortaleza no final do século XIX, o prelúdio do desastre ainda maior em 1915: “A peste e a fome matam mais de 400 por dia! O que lhes afirmo é que, durante o tempo em que estive parado em uma esquina, vi passar 20 cadáveres: e como seguem para a vala! (...) E as crianças que morrem, como são conduzidas! Pela manhã, os encarregados de sepultá-las vão recolhendo-as em um grande saco; e, ensacados os cadáveres, é atado aquele sudário de grossa estopa a um pau e conduzido para a sepultura”.
O dia 10 de dezembro de 1878 ficou conhecido na história do Ceará como “Dia dos Mil Mortos”, quando o antigo cemitério do Lazareto da Lagoa Funda, a noroeste de Fortaleza, recebeu 1004 cadáveres. Tem também a seca de 1915 e a de 1932, sendo que cada uma tem sua marca ligada a um aspecto bem marcante, como vejamos:
Segundo o diretor do Associação do Patrimônio Público do Ceará - Apec, o historiador e professor Márcio Porto, os três períodos foram escolhidos por se tratarem dos mais emblemáticos da história do Estado. “A seca de 1877-79 foi das mais violentas da história -e não atingiu só a população pobre, os grandes latifundiários perderam seus rebanhos. Já a de 1915, ficou famosa por conta da Rachel de Queiroz. Na de 32, temos documentos em que a Diretoria de Saúde Pública do Estado cita a criação de ‘campos de concentração’ de flagelados da seca em Fortaleza”.
*A Seca de 1915 está entre as estiagens que mais marcaram o sofrimento do sertanejo. As marcas dessa seca foram muito profundas em todo o estado, permanecendo até hoje no imaginário popular. O que diferencia 1915 de outras secas é que naquele ano o governo do Ceará encontrou uma “solução final” e construiu um campo de concentração no Alagadiço, zona oeste de Fortaleza, para conter os milhares de sertanejos que vinham de todas as regiões. Estima-se que por lá passaram cerca de oito mil “mulambentos”, forma depreciativa como eram chamados. A fuga desesperada desses sertanejos nos períodos de grande estiagem era encontrar condições de vida melhor, com trabalho e dignidade, migrando para os grandes centros.
Assim, a iniciativa do governo de construir os campos de concentração foi louvada pela alta sociedade, horrorizada com os sertanejos maltrapilhos e enfermos pela fome em praças e locais públicos da cidade. Na prática, os campos de concentração foram tão dramáticos quanto a própria seca.
Este é o cenário de terror provocado não só pelo fenômeno climático da seca, mas também pela ausência de políticas públicas efetivas e, principalmente, o impacto das contradições sociais gerado entre a recém-formada burguesia e uma imensidão de sertanejos pobres.

Além da tragédia da grande seca de 1915, como se não bastasse, dezessete anos depois do desastre do Campo de Concentração do Alagadiço, em 1932, o governo com apoio federal do Estado Novo “aprimorou” a experiência e desta vez não só na capital, mas também em outras sete cidades do interior.
Em uma sociedade de classes injusta, períodos de grande estiagem atingem diretamente o agricultor pobre que depende do próprio cultivo diário para sobreviver. O Ceará possui 92% de seu território inserido no semiárido, sendo uma área de vulnerabilidade.
Esse elemento aprofunda as questões sociais e econômicas, gerando cada vez mais um fosso entre ricos e pobres. Esse quadro ficou cada vez mais explícito quando o Estado entrou no modo de produção capitalista.
No inicio de 1915, Fortaleza recebeu assustadoramente um número quatro vezes maior que a população existente, provocando epidemias, crimes, assassinatos, suicídios, saques, loucuras e, segundo alguns historiadores, até mesmo antropofagia por causa da fome.
Os sertanejos que não tinham mais local pra se instalarem, se amontoavam nas ruas da cidade, ocupavam as calçadas e 3 mil pessoas se abrigavam no Passeio Público, até então área nobre de sociabilidade da elite na Belle Epóque fortalezense. Muitas vezes a força policial foi empregada para conter a realidade que incomodava o ideal burguês.
A seca de 1915 acontece justamente em meio ao processo de inserção da cidade na economia capitalista.
Assim, o então presidente (governador) do estado, Benjamin Liberato Barroso, pressionado pela elite local, propôs construir um campo para concentrar refugiados e necessitados em um único local dentro da capital, em desesperada fuga, e “facilitar” o “socorro”.
O terreno era quase 500 metros quadrados no Alagadiço, onde hoje compreende os bairros São Gerardo e Otávio Bonfim. As casas eram pequenas e apinhadas uma as outras, construídas com placas de zinco.
Em pouco tempo, o número de sertanejos cresceu muito e o governo não pode manter em boas condições de alimentação e higiene.
A situação se agravou quando chegaram as chuvas de setembro e outubro - as chuvas do caju - somando todo o tipo de descaso, de tal forma que em dezembro já apresentava incontáveis mortes.
Os cadáveres empilhavam-se à espera de transporte, ao longo da linha de bonde que passava ao lado do campo.
A política de Estado de segregação dos sertanejos chegou em uma média de 150 mortes diárias.  O governo então traçou uma nova estratégia contra a situação que só piorava e passou a oferecer passagens para outros estados aos sertanejos, primeiramente à região Amazônica, trabalhar nos seringais.
A propaganda inicialmente adotada pelo governo, igreja e jornais da época estimulava a migração fazendo falso apelo ao orgulho pessoal dessas pessoas, enquanto na verdade a elite se livraria do “estorvo”.
Quem “se entregava” e padecia do flagelo da seca nos campos de concentração eram os flagelados; quem “superava as dificuldades” e se retirava do estado para buscar melhores condições de vida eram os retirantes.
Foi o início da saga de enormes contingentes de retirantes em todas as regiões do Brasil no século XIX. O campo de concentração do Alagadiço foi desativado em 18 de dezembro de 1915.


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