Amazônia: CICLO DA BORRACHA
Lutas,
sonhos e dramas humanos
Mão
de moça dada em hipoteca em seringal
Em todos os tempos, em todos
os lugares onde houver duas pessoas de sexos opostos, existirá sempre a
possibilidade da fagulha da paixão se acender. A atração entre homem e mulher é
um fator de aproximação de almas, um ingrediente difícil de se explicar, uma
condição que determina a construção da célula básica da família, que é a união
de duas pessoas. A família e a sociedade são formadas a partir da existência
dessa célula, que se forma a partir de uma energia produzida na usina do nosso
corpo que é o nosso coração.
Essa história é mais uma das
que selecionamos no livro SAPUPEMA – Contos amazônicos, do escritor José
Potyguara, que reproduzimos por explorar esses temas que são próprios e
intrínsecos à nossa vida que é o amor, a paixão, o namoro proibido entre duas
pessoas.
Todo o seringal sabia da
grande paixão do Elias Bichara pela Isaura do velho Leocádio. O próprio sírio
não fazia segredo disso. Regateando, rio acima, rio abaixo, toda vez que por
ali passava, seu batelão demorava no porto semanas inteiras. Quando via Isaura,
só faltava comê-la com os olhos. Se a moça ia ao regatão, fazer alguma compra,
Elias desmanchava-se em gentilezas e enchi-lhe de presentes. Sempre que em sua
presença, alguém aludia à beleza de Izaura, o sírio logo comenta, entre
suspiros:
- Morena bonitinha, muito
zimbática!
Dedicando a Ricardo um sincero
amor, Isaura fingia não compreender os galanteios de Elias. Seringueiro trabalhador,
rapagão forte e desempenado, peito largo e olhar franco, mais simpático do que
bonito, Ricardo era o ideal de todas as moças daquela redondeza.
Além do físico insinuante, possuía
outra qualidade que era um fascínio: tocava viola e cantava admiravelmente.
Ninguém melhor do que ele dedilhava o mágico instrumento. E quando em noite de
luar, ele entoava uma canção sentimental, sua voz tem tal meiguice, um quê de
enternecedor, um feitiço, mexendo com o coração das mocinhas. Mas indiferente
ao círculo de suas admiradoras, Ricardo amava unicamente Isaura.
Nem sabia dizer como nasceu
aquilo. Começou por simples amizade, logo transformado em amor puro, sincero,
espontâneo. Os seus olhos se procuravam assiduamente e, cruzando-se, logo se
evitavam, para novamente se procurarem. Certa vez, ao anoitecer, voltando da
estrada de seringa, Ricardo encontrou Izaura apanhando flores junto ao
jasmineiro. Alí mesmo, perante as estrelas, selaram com o primeiro beijo o
juramento de um grande amor.
Depois, como que arrependida
de ter se deixado abraçar, Izaura empurrou Ricardo, fingindo-se amuada:
- P’ra que você fez isso?
T’aí, machucou os jasmins todos! E os dois puseram-se a juntar as flores
dispersas pelo chão.
Alimentando com carinho a
chama do amor que lhe aquecia o peito, Izaura nem se apercebia do sofrimento de
Elias, cada vez mais apaixonado. Ignorando a difícil situação financeira do
pai, não sabia ela que, só ao sírio, ele devia trinta contos de reis.
Após a falência do seu
império, Leocádio não demonstra o menor esforço. Enfastiado da vida, comprou o
seringal menos para fins industriais, do que para refúgio, onde pudesse
esconder a vergonha de sua derrota. Arrendou as estradas a meia dúzia de
seringueiros que lá encontrou. A renda mal dava para o sustento da família. Sem
dinheiro nem crédito, mas também sem dignidade nem escrúpulo, vivia de
expedientes, explorando a louca paixão de Elias pela filha. O sírio era o único
comerciante que ainda lhe vendia fiado e lhe emprestava dinheiro. E Leocádio
abusava, cinicamente. Já reformou, três vezes, as promissórias de sua dívida,
com os juros acumulados.
Mas Elias já estava cansado de
suportar a velhacaria do pai e o desprezo da filha. Resolveu colocar um
paradeiro. As promissórias estavam às vésperas do quarto vencimento. Ou Isaura,
ou o seu dinheiro. Ou Leocádio lhe dava a filha em casamento, ou ele requeria a
penhora do seringal. Com essa disposição, esperou Leocádio. Antes do almoço ele
ia ao regatão, para o infalível cálice de conhaque, e o sírio aproveitou o
momento:
- Goronel gonhece dificuldade
gomercio. Não leva mal eu fala nosso negúcio. Eu brecisa receber aquele
dinheiro.
Repetindo as mesmas lamurias
de sempre, Leocádio responde:
- Ora, Elias! Não posso ainda.
Tenha paciência. Vamos reformar as promissórias.
- Baciênca, eu? Já teve demais
goronel. Olha: já reformou bramissora três vez!
- Quem reforma três, reforma
quatro. Eu pago juros.
E Elias decidido:
- Não goronel. Não bode
esperar mais. Se senhor não bode pagar, eu aceita seringal. Brajuíza bra eu.
Jura bra Deus! Sua debito trinta contos.
Zeringal não vale isso!
Estranhando a insistência do
sírio Leocádio baixou a cabeça, preocupado. Decorridos alguns momentos de
silencio, Elias levanta-se e, timidamente, pondo a mão sobre o ombro do velho
diz:
- Que é isso goronel? Não
brecisa ficar triste! Eu brobõe outra solução.
- Qual?
- Goronel bromete não fica
zangado minha brobosta?
- Acho que não há motivo para
zanga!
Mais confiado, Elias senta-se
junto a Leocádio e diz em voz baixa:
- Nós bode resolve isso em
família.
- Em família como?
Vencendo o acanhamento, o
sírio explica:
- Goronel tem filha
moça...bonita.... Eu zimbatiza muito seu filha Isaura. Nois casa de depois faz
suciadade: goronel entra com seringal, eu entra com mercadoria. Bramissora sua
debito desaparece. Fica tudo direitinho, em família. Leocádio nada responde.
Acende um cigarro e fica fumando e ruminando as palavras do sírio. Ao sair diz:
- Bem, vou pensar sobre a
nossa sociedade. Você compreende: é assunto importante. Preciso resolver com
calma. Amanhã darei a resposta. E quando transpôs a prancha do regatão e subiu
o barranco, já estava resolvido a acelerar a proposta. Julgava aquilo uma
solução salvadora. Sentiu ímpeto de voltar e beijar o sírio. Em todo caso, como
se tratava do futuro da filha, resolveu primeiro comunicar à esposa.
Isaura sempre teve horror ao
pai. Não era ódio, mas uma espécie de tímida repulsa que nela se arraigara
desde cedo. De sua infância, em Belém, guardava desagradável lembrança dos
beijos que o pai lhe dava, impregnando-lhe o rosto com um insuportável hálito
de vinho e sarro. Temperamento seco, habitualmente irritado, Leocádio nunca
soube se fazer estimar pela filha. Transformava-se, porém, sob os efeitos do
álcool. Era sempre nesse deplorável estado, ao retornar de suas libertinagens,
que tinha derrames de ternura para com a menina. Ao invés de atraí-la,
causava-lhe asco.
Depois, à proporção que
crescia, Isaura foi observando muita coisa, embora não pudesse ainda
compreender o drama que se desenrolava no cenário doméstico. Várias vezes,
surpreendeu a mãe chorando. Uma intuição lhe dizia que era o pai o causador
daquelas lágrimas. Mais tarde, aquela viagem à Europa, o abandono da família,
os comentários que ouvia, foram completando seu conceito sobre o caráter falho
de Leocádio.
E agora, agora, moça feita,
por mais que se esforçasse, não conseguia equiparar em seu coração, o grande
afeto que consagrava à mãe, sempre tão boa e carinhosa, ao sentimento de simples
respeito que tinha pelo pai.
Ele, há muito tinha percebido
isso. Mas não ligava nem procurava remediar, impondo-se à estima da filha.
Mesmo porque, em consciência, achava natural que ela gostasse mais da mãe do
que dele. Assim, quase sem se falar, pai e filha viviam num círculo vicioso:
ela não se aproximava por medo, ele fogia dela porque percebia o pavor que lhe
causava. Sentindo-se sem autoridade para tratar com a filha sobre o casamento,
Leocádio prefere encarregar a mulher dessa incumbência. À noite, chama dona
Sancha para o pequeno escritório, nos fundos da casa e tranca-se por dentro.
Contando encontrar barreira na consciência reta da esposa, principia
desajeitado, com certa cerimônia, procurando dissimular, sob fingido zelo pelo
futuro da filha, a finalidade vergonhosamente mercantil do assunto.
- Sabes, minha velha, estamos
no fim da vida. Tenho pensado muito em nossa filha. Quando morrermos, que será
dela?
- O que Deus quiser! –
responde a mulher, num suspiro de resignação.
- Sim, mas...precisamos
ampará-la por um bom casamento.
Habituada a grande indiferença
do marido pelo bem-estar da família, dona Sancha fita-o demoradamente,
procurando ler-lhe na fisionomia a explicação de tão estranha atitude. O olhar
interrogativo da mulher desconcerta Leocádio. Esperava que ela dissesse alguma
coisa; concordasse com a necessidade que ambos têm de amparar a filha;
encaminhasse enfim, aquele entendimento a completo êxito. Para disfarçar seu
embaraço, Leocádio abre um jornal e folheia ao acaso. Afinal, vendo que ela não
fala, resolve atacar o assunto, diretamente:
- Sabes¿ Hoje pela manhã, o
Elias Bichara me pediu Izaura em casamento. Surpreendida, e sem querer
acreditar, dona Sancha pisca, pisca, várias vezes e pergunta:
- Quem? O turco do regatão?
- Sim – responde Leocádio, sem
coragem de tirar os olhos do jornal.
- E é a isso que chamas um bom
casamento? Um turco velho, feio e analfabeto...
- Ora mulher! Mocidade e
beleza não enchem barriga. Em compensação, Elias é rico; pode dar à nossa filha
muito mais conforto do que nós. É um ótimo casamento.
- Uma verdadeira desgraça, com
a qual não podemos concordar! – replica a mãe.
Leocádio sente que está
perdendo terreno. Resolve apelar para outro argumento. Aproxima a cadeira e,
imprimindo à voz o timbre mais adocicado que pôde arranjar, recomeça:
- Mas Sancha, precisamos
considerar nossa situação. Tu sabes: eu devo ao Elias trinta contos de reis. O
turco tem sido muito paciente. As promissórias vão se vencer pela quarta vez.
Se não lhe pagarmos agora, ela toma o seringal e nós ficamos na miséria, sem
ter para onde ir.
- E que tem isso com o
casamento?
- Perguntou ela.
- Ora filha! Então não
compreendes? Passando ele a nosso genro, a dívida fica em família e faremos uma
sociedade para explorar o seringal. A proporção que se vai inteirando da
torpeza do plano, dona Sancha fica rubra de raiva. Todo o seu busto estremece,
o olhar cintila, a respiração torna-se ofegante. Afinal, não podendo mais
conter-se, explode:
- Isso é uma indignidade! Uma vergonha!
Então você quer vender sua filha a um turco, por trinta contos de reis? Que
qualidade de pai é você? Nunca a estimou, eu bem sabia. Mas francamente, não o
supunha capaz de tanto! Mas, eu sou mãe. Criei-a em meus braços, sustentei-a
com meu leite. Tenho ao menos o direito de protestar contra o ato crapuloso do
pai que vai vender a filha!
Exausta, quase desfalecida
pelo esforço e a comoção, a boa senhora cai sobre a cadeira, numa crise de
pranto convulso. Ante a atitude enérgica da esposa, sempre tão dócil e
paciente, Leocádio descontrola-se, volta à habitual brutalidade e berra, dando
um murro sobre a mesa:
- Pois há de casar-se com o
turco, porque eu quero! Eu bem sei dos amores de Isaura pelo Ricardo, um
seringueiro à toa, um banga-la-fumanga sem vintém! Sei também que você alcovita
esse namoro! Pois bem: amanhã vou dar o “sim” ao Elias. Você que trate de
convencer sua filha. O casamento se fará, quer queiram, que não. E depois, se
você, ela e o Ricardo não gostarem, que vão para o diabo que os carregue!
E saiu batendo a porta com
força.
Quando se espalhou a notícia
do noivado, foi grande a celeuma em todo o seringal! Os comentários surgiram,
cada qual o mais malicioso: - O que está me dizendo? A Isaura, tão bonita,
casar com aquele turco de venta de tucano?!...
- É só pro via do dinheiro! O
turco é rico.
- E o pobre do Ricardo! Tanto
bem que ele quer à Isaura! Bichinha ingrata!
- Ela não tem culpa, coitada!
Vai casá à força. O pai obrigou.
- Obrigou? Credo!
- Obrigou, sim. Dis’que pru
via duns dicumento. Não vê que o coroné Leocádio deve uns contos de réis ao
turco? Apois é. Entonce, combinaram o casamento e fica tudo pago.
- Tibes vote!...Que coroné
severgôin! Entonce ele vai niguciá a fia?...Ist’é um iscandêlo!
Leocádio queria fazer o
casamento imediatamente. Mas Elias objetou:
- Esbera pogadinho, goroné. Eu
deseja faz gasamento direitinho, com bonita festa e gonvite bra todo bessoal.
Marcaram prá noite de natal,
quando o padre deve vir ao seringal, celebrar a missa do galo. Faltam apenas
quinze dias. Começaram os preparativos da festa e da noiva, tudo à custa do
noivo, que está numa generosidade sem limites. Comprou e mandou para casa do
futuro sogro, dois bois três grandes cevados, duas dúzias de galinhas e um Peru.
Contratou vários tocadores e mandou convidar toda a população do seringal e da
vizinhança.
A generalidade dos convites
envolve um intuito especulativo: cada convidado é freguês a comprar no regatão,
o necessário para comparecer decentemente. Em poucos dias, o sírio recuperou as
despesas da festa, esgotando o velho sortimento de chitas e riscados que
mofavam nas prateleiras do regatão. Ninguém quer ir ao casamento sem estrear um
vestido novo. Esperada com ansiedade, a festa é o assunto. Só Ricardo não
participa da alegria geral. Residindo com sua mãe, numa pequena barraquinha, do
outro lado do rio, nunca mais pode ver Isaura. O pai conserva-a sob rigorosa
vigilância e dona Sancha receando alguma violência do marido, mandou prevenir a
Ricardo que não aparecesse no barracão.
Desde esse dia, o rapaz não
teve mais ânimo para nada. Não trabalha, não dorme, quase não come. Vive pela
mata, como um desvairado, evitando as estradas, fugindo quando alguém se
aproxima. Só alta noite aparece em casa e chama pela mãe, que cheia de susto,
vem abrir-lhe a porta. A pobre velhinha compreende o sofrimento do filho, mas
nada pode fazer. Reza, implorando a benção de Deus para ele.
- Viva os noivos! ...
- Viva! ...
Dez horas da noite. A festa
está no auge da animação. O terreiro, o alpendre, a grande sala do barracão do
coronel Leocádio regorgitam de convidados. A algazarra dos dançadores se
mistura ao som das violas e harmônicas, pandeiros e ganzás. Sentado no sofá, ao
fundo da sala, o Elias, radiante de satisfação, recebe cumprimentos de todos. A
seu lado, Isaura olha com inveja a alegria das amigas, que passam, dançando.
Está ainda, mais bonita. O corpo, elegante e bem talhado, era um fascínio,
dentro de um vestido justo de setim branco, que caía por trás, em graciosa
cauda. Um verdadeiro contraste, ante a figura angulosa e cabeluda do noivo.
De quando em vez, velhas
linguarudas vêm da cozinha, arriscar um olhar curioso pela sala. Intrigadas com
a desigualdade do casal, voltam resmungando:
- Credo! Mal-empregado!
Fazendo as honras da casa, o
coronel Leocádio, já meio inconsciente pelo excesso de conhaque, vai e vem, por
entre os convidados, servindo a este, obsequiando aquele, os olhos muito
vermelhos, a fala pastosa. Está em seu elemento. A festa, a fartura de bebidas,
recorda-lhe sua vida libertina, em Belém, quando tinha dinheiro e importância.
Enquanto os dançarinos de
divertem, o padre Victor, velho missionário francês, aguarda a hora da missa, lendo
seu breviário na sala de jantar, longe do burburinho profano do baile.
Quase meia noite.
Contrafeitos os convidados,
interrompem as danças, para que o sacristão prepare o altar. Isaura pede
licença para retirar-se, alguns momentos, a fim de ir ao quarto, colocar o véu
e a grinalda.
Sobre uma mesa é improvisado o
altar, com um crucifixo, dois castiçais e alguns jarros de flores. Junto do
altar, duas cadeiras e um tapete para os noivos. Aos poucos a sala vai se
enchendo. As velhas, que, por ocasião das danças, não ousavam penetrar ali,
disputam, agora, os primeiros lugares, para melhor ouvirem o sermão do “seu
vigário”.
Tudo preparado, as velas
acesas, o padre vai começar a missa.
Falta, porém, a noiva, que
continua trancada no quarto. Aborrecido pela demora, o coronel Leocádio resolve
ir buscar a filha. Diante da porta fechada, chama uma, duas, três vezes. Bate com
força. O mesmo silêncio. Aflito, chama dois homens e manda por a porta dentro. Ninguém
no quarto. Sobre uma cadeira, junto à janela aberta, o véu, a grinalda, dos
sapatos brancos, o vestido da noiva e um lacônico bilhete: “Papai, vou com
Ricardo, para a cidade, onde casaremos amanhã. Quero dizer para o senhor que
amor não se compra. Izaura”
Nenhum comentário:
Postar um comentário