RONDONIA: Povoamento do Guaporé
A
resistência e a derrota do Quilombo do Piolho
Essa é a história da luta dos escravos fugidios
da Capitania do Mato Grosso para a
região do Guaporé, nos idos de 1700. Por aquela região do guaporé iniciou-se o
povoamento do que hoje é Rondônia. E esse povoamento foi iniciado por escravos
fugidios e indígenas que após a abolição foram distribuídos pelas terras que
margeavam o rio Guaporé.
A exploração da cana-de-açúcar e a lavra de ouro
foram responsáveis pela economia da Capitania do Mato Grosso. Para
arregimentação dessa economia a Coroa Portuguesa deslocou para a região muitos
escravos negros que se ajuntaram a indígenas capturados, formando-se a mão de
obra e dando inciio ao surgimento de vários povoados.
O Quilombo do Piolho era constituído por africanos
e crioulos, índios e caborés, fugidos das Novas Minas das lavras de Mato
Grosso, onde eram escravos. O reduto abrigava uma população de quase trezentas
pessoas governadas por José Piolho, substituído, após a sua morte, por sua
mulher Tereza, intitulada de Rainha Viúva.
Teresa de Benguela,
líder do quilombo do Quariteré em Vila Bela da Santíssima Trindade era, como a
própria identificação dela, pelos portugueses, uma africana de Angola,
embarcada no porto de Benguela. O que aponta para a região em que vivia, antes
da escravização.
As atividades dos Quilombolas se
resumiam em caçar, pescar, derrubar mato, fazer roça, plantar e colher, criar
aves, fabricar aves, produzir mel e guerrear com os índios cabixis, por causa
de lhes roubarem as mulheres.
O Governo
Souza Coutinho, pressionado pela corte, exigia dos mineradores o aumento de
produção, esta decaia por falta de braços para o trabalho. Os escravos
africanos importados de São Paulo, São Vicente e do Rio de Janeiro, reduziam-se
mortos pelas endemias, fugindo para as malocas de Chiquitos e Missões
Espanholas ou sumindo simplesmente sem deixar vestígios.
Os homens foram concentrados em baixo de uma árvore, sob a mira dos bacamartes,
os mortos enterrados, os feridos medicados e as mulheres possuídas pelos
sertanistas, como recompensa e presa de guerra. A rainha Teresa de Benguela,
após alguns dias, morria de inanição, pois indignada, deixou de se alimentar,
ante os vexames, humilhações e desrespeito que fora submetida.
Com o declínio desses dois ciclos econômicos, esses
escravos negros e indígenas, passaram a entrar em conflitos, sendo que vários desses conflitos foram causados pelo
rapto de mulheres indígenas que os escravos roubavam para si, matando os
machos. Por outro lado, o abandono dos escravos à própria sorte ocasionou a formação
de quilombos que os escravos reorganizavam e o governo através de expedições
punitivas perseguia para destruir. Foi o caso do Quilombo do Piolho, que localizava-se
nas proximidades do rio Galera, afluente do rio Guaporé.
Fugidos da exploração
branca, os habitantes do quilombo conviviam comunitariamente em uma fusão de
elementos culturais de origem indígena e africana. Os homens caçavam, lenhavam,
cuidavam dos animais e conseguiam mel na mata; as mulheres preparavam os
alimentos e fabricavam panelas com barro, artesanato e roupas.
As roupas eram fabricadas no próprio quilombo,
no qual havia duas tendas de ferreiro, onde consertavam suas ferramentas. Do
quilombo estabelecido provinha também todo o alimento necessário para a
alimentação e provavelmente para a comercialização em circuitos locais, como
observa anos mais tarde Francisco Pedro de Mello em 1795.
O quilombo do Piolho tinha uma organização
social moderna para a época com rei e rainha, sendo que o rei era falecido. A
rainha, de nome Tereza, era da nação Benguela; tinha sido escrava de um certo capitão
de nome Timóteo Pereira Gomes. A rainha Tereza reinava soberana no quilombo,
com firmeza e rigor. A rainha Tereza, governava esse quilombo a modo de
parlamento, formado por deputados que se reuniam uma vez por semana para
deliberar sobre as questões da comunidade.
Ela mesma presidia as assembleias e as decisões
daquele parlamento eram ela fazia executá-las a risca e sem apelação nem
agravo. A imagem que era retratada daquele quilombo era carregada de uma grande
mística, com mistérios e mandingas.
O pai da rainha Tereza, José Piolho, tinha sido
rei em um quilombo que foi destruído no Rio de Janeiro. Este era fiado nas
mandingas, tendo sido um dos que resistiu depois de algumas ciladas que fez aos
soldados. Mas perdeu a vida atingido por um tiro que lhe acertou o coração em
cheio.
De acordo com o Anal de Vila Bela de 1770, em
27 de junho daquele ano foi enviada uma Companhia especificamente montada para
atacar o quilombo do Piolho, sendo que no dia 22, os soldados chegaram ao
quilombo e abriram fogo, sendo que a maioria dos quilombolas conseguiu fugir do
ataque. A rainha Tereza tinha ordenado que os quilombolas se armassem para
resistir aos ataques das tropas do governo. Todos os seus súditos assim o
fizeram, atendendo as suas ordens;
Os negros e índios do quilombo estavam armados,
uns com armas de fogo, outros com arcos e flechas No entanto, foram vencidos pela superioridade
das armas que foram usadas contra eles. E os que escaparam se refugiaram no
mato.
Apesar da grande quantidade de resistência não
houve baixas do lado das forças governamentais, ao passo que da parte dos
escravos nove tombaram, dos quais foram apresentadas ao Senado 18 orelhas. A
ordem dessa Companhia era para destruir o quilombo. Quanto aos mortos, cortavam-lhes
suas orelhas. Os sobreviventes eram reintegrados ao sistema escravista e ao
trabalho nas minas de ouro e diamante.
As estatísticas da destruição foram as
seguintes: O quilombo era composto de 69 pessoas entre machos e fêmeas, dos
quais foram levados acorrentados e presos 41, sendo que nove foram mortos; ficando
escondidos escondidos pela selva 37. Faziam parte daquela comunidade trinta e seis
índias, que os negros tinham apanhado no sertão, onde matavam os machos e
traziam as fêmeas para delas usar como de mulheres próprias”.
Durante o ataque a rainha Tereza foi capturada.
Posta em prisão, na vista de todos aqueles a quem governou naquele reino, os
soldados das tropas oficiais lhe dirigiam palavras injuriosas, de forma que,
envergonhada, se pôs muda ou, para melhor dizer, amuada. Em poucos dias expirou
de pasmo. Depois de morta, foi-lhe cortada a cabeça e colocada no meio da praça
daquele quilombo, em um alto poste, onde ficou para memória e exemplo dos que a
vissem. Os quilombolas que conseguiram fugir ao ataque reconstruíram o quilombo
que foi novamente atacado em 1795, sendo destruído completamente.
Fontes:
O sistema escravista e as
territorialidades específicas:
Por: Emmanuel de Almeida Farias Júnior
O Guaporé e a questão quilombola:
Jornalista Matias mendes
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