quarta-feira, 12 de dezembro de 2018




RONDONIA: Povoamento do Guaporé

A resistência e a derrota do Quilombo do Piolho
Essa é a história da luta dos escravos fugidios da Capitania do  Mato Grosso para a região do Guaporé, nos idos de 1700. Por aquela região do guaporé iniciou-se o povoamento do que hoje é Rondônia. E esse povoamento foi iniciado por escravos fugidios e indígenas que após a abolição foram distribuídos pelas terras que margeavam o rio Guaporé.
A exploração da cana-de-açúcar e a lavra de ouro foram responsáveis pela economia da Capitania do Mato Grosso. Para arregimentação dessa economia a Coroa Portuguesa deslocou para a região muitos escravos negros que se ajuntaram a indígenas capturados, formando-se a mão de obra e dando inciio ao surgimento de vários povoados.

O Quilombo do Piolho era constituído por africanos e crioulos, índios e caborés, fugidos das Novas Minas das lavras de Mato Grosso, onde eram escravos. O reduto abrigava uma população de quase trezentas pessoas governadas por José Piolho, substituído, após a sua morte, por sua mulher Tereza, intitulada de Rainha Viúva.

Teresa de Benguela, líder do quilombo do Quariteré em Vila Bela da Santíssima Trindade era, como a própria identificação dela, pelos portugueses, uma africana de Angola, embarcada no porto de Benguela. O que aponta para a região em que vivia, antes da escravização.
As atividades dos Quilombolas se resumiam em caçar, pescar, derrubar mato, fazer roça, plantar e colher, criar aves, fabricar aves, produzir mel e guerrear com os índios cabixis, por causa de lhes roubarem as mulheres.
O Governo Souza Coutinho, pressionado pela corte, exigia dos mineradores o aumento de produção, esta decaia por falta de braços para o trabalho. Os escravos africanos importados de São Paulo, São Vicente e do Rio de Janeiro, reduziam-se mortos pelas endemias, fugindo para as malocas de Chiquitos e Missões Espanholas ou sumindo simplesmente sem deixar vestígios.

Os homens foram concentrados em baixo de uma árvore, sob a mira dos bacamartes, os mortos enterrados, os feridos medicados e as mulheres possuídas pelos sertanistas, como recompensa e presa de guerra. A rainha Teresa de Benguela, após alguns dias, morria de inanição, pois indignada, deixou de se alimentar, ante os vexames, humilhações e desrespeito que fora submetida.

Com o declínio desses dois ciclos econômicos, esses escravos negros e indígenas, passaram a entrar em conflitos, sendo que  vários desses conflitos foram causados pelo rapto de mulheres indígenas que os escravos roubavam para si, matando os machos. Por outro lado, o abandono dos escravos à própria sorte ocasionou a formação de quilombos que os escravos reorganizavam e o governo através de expedições punitivas perseguia para destruir. Foi o caso do Quilombo do Piolho, que localizava-se nas proximidades do rio Galera, afluente do rio Guaporé.

Fugidos da exploração branca, os habitantes do quilombo conviviam comunitariamente em uma fusão de elementos culturais de origem indígena e africana. Os homens caçavam, lenhavam, cuidavam dos animais e conseguiam mel na mata; as mulheres preparavam os alimentos e fabricavam panelas com barro, artesanato e roupas.

As roupas eram fabricadas no próprio quilombo, no qual havia duas tendas de ferreiro, onde consertavam suas ferramentas. Do quilombo estabelecido provinha também todo o alimento necessário para a alimentação e provavelmente para a comercialização em circuitos locais, como observa anos mais tarde Francisco Pedro de Mello em 1795.

O quilombo do Piolho tinha uma organização social moderna para a época com rei e rainha, sendo que o rei era falecido. A rainha, de nome Tereza, era da nação Benguela; tinha sido escrava de um certo capitão de nome Timóteo Pereira Gomes. A rainha Tereza reinava soberana no quilombo, com firmeza e rigor. A rainha Tereza, governava esse quilombo a modo de parlamento, formado por deputados que se reuniam uma vez por semana para deliberar sobre as questões da comunidade.

Ela mesma presidia as assembleias e as decisões daquele parlamento eram ela fazia executá-las a risca e sem apelação nem agravo. A imagem que era retratada daquele quilombo era carregada de uma grande mística, com mistérios e mandingas.

O pai da rainha Tereza, José Piolho, tinha sido rei em um quilombo que foi destruído no Rio de Janeiro. Este era fiado nas mandingas, tendo sido um dos que resistiu depois de algumas ciladas que fez aos soldados. Mas perdeu a vida atingido por um tiro que lhe acertou o coração em cheio.

De acordo com o Anal de Vila Bela de 1770, em 27 de junho daquele ano foi enviada uma Companhia especificamente montada para atacar o quilombo do Piolho, sendo que no dia 22, os soldados chegaram ao quilombo e abriram fogo, sendo que a maioria dos quilombolas conseguiu fugir do ataque. A rainha Tereza tinha ordenado que os quilombolas se armassem para resistir aos ataques das tropas do governo. Todos os seus súditos assim o fizeram, atendendo as suas ordens;

Os negros e índios do quilombo estavam armados, uns com armas de fogo, outros com arcos e flechas  No entanto, foram vencidos pela superioridade das armas que foram usadas contra eles. E os que escaparam se refugiaram no mato.

Apesar da grande quantidade de resistência não houve baixas do lado das forças governamentais, ao passo que da parte dos escravos nove tombaram, dos quais foram apresentadas ao Senado 18 orelhas. A ordem dessa Companhia era para destruir o quilombo. Quanto aos mortos, cortavam-lhes suas orelhas. Os sobreviventes eram reintegrados ao sistema escravista e ao trabalho nas minas de ouro e diamante.

As estatísticas da destruição foram as seguintes: O quilombo era composto de 69 pessoas entre machos e fêmeas, dos quais foram levados acorrentados e presos 41, sendo que nove foram mortos; ficando escondidos escondidos pela selva 37. Faziam parte daquela comunidade trinta e seis índias, que os negros tinham apanhado no sertão, onde matavam os machos e traziam as fêmeas para delas usar como de mulheres próprias”.

Durante o ataque a rainha Tereza foi capturada. Posta em prisão, na vista de todos aqueles a quem governou naquele reino, os soldados das tropas oficiais lhe dirigiam palavras injuriosas, de forma que, envergonhada, se pôs muda ou, para melhor dizer, amuada. Em poucos dias expirou de pasmo. Depois de morta, foi-lhe cortada a cabeça e colocada no meio da praça daquele quilombo, em um alto poste, onde ficou para memória e exemplo dos que a vissem. Os quilombolas que conseguiram fugir ao ataque reconstruíram o quilombo que foi novamente atacado em 1795, sendo destruído completamente.


Fontes:
O sistema escravista e as territorialidades específicas:
Por: Emmanuel de Almeida Farias Júnior
O Guaporé e a questão quilombola:
Jornalista Matias mendes





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