quarta-feira, 12 de dezembro de 2018




BRASIL: Crônicas populares

A saga do homem viveu para o voluntariado

O ano de 2001 foi instituído pela ONU como o Ano Internacional do voluntariado. De lá para cá, em consequência desse apelo sobre o tema, muitas empresas e cidadãos tem se lançado no serviço voluntário da filantropia. Porém, essa manifestação sempre existiu. O trabalho voluntário é tão antigo quanto as primeiras civilizações. Esta prática remonta ao momento em as tribos coletivistas e igualitárias se expandiram e deram origem a cidades e a sociedades desiguais e complexas.

A história que passamos a contar é o relato de um caso real acontecido no Estado do Piauí, entre o final de 1800 e a primeira metade de 1900, nas terras de Vila de São João da Parnaíba, hoje município de Parnaíba. É a história de um homem que passou boa parte de sua vida fazendo voluntariado, rezando para curar doentes, receitando remédios caseiros e pregando a palavra de Deus para salvar almas. Naquela época essa região tinha o status de capitania, era ocupada por criadores de gado que traziam seus rebanhos de outras capitanias para se fixarem em terras piauienses, em razão da abundância de pasto de boa qualidade.

Na esteira dessa ocupação vieram colonos de Pernambuco, da Bahia, bem como do Maranhão e do Ceará, com o objetivo de desenvolver a atividade pecuária na região, e nesse meio veio uma família onde o marido era natural da Bahia e a esposa natural de Pernambuco. Adquiriram umas terras no vale do rio Parnaíba e passaram a criar gado e extrair palha de carnaúba para vender a cera que era um dos principais produtos. Naquela região a densidade demográfica era muito baixa, não havia escola para as crianças nem assistência de saúde para a população que se socorria de rezadeiras, curandeiras e parteiras. As estradas eram muito, muito precárias e as viagens eram feitas pelos rios. A família teve oito filhos, sendo quatro homens e quatro mulheres que cresciam e ajudavam na lida da pequena propriedade. Entre os filhos homens tinha um de nome Clariano, que desde a tenra idade demonstrou vocação para viagens e trabalhos voluntários.

Muito cedo os pais o puseram para aprender as primeiras letras na Vila de São João da Parnaíba, distando aproximadamente 20 léguas, cujo trajeto era feito em “barcos a vela e a vara” pelas águas do rio Parnaíba. Na escola esse jovem demonstrou grande inteligência tendo sido distinguido como bom aluno. Ao retornar para casa, resolveu ir visitar os parentes da sua mãe nas terras de Pernambuco. Empreendeu sua primeira viagem de aproximadamente 50 léguas. Alí nas terras da Vila de Olinda foi recebido pela parentada de sua genitora com muita alegria e contentamento, pois era portador de boas notícias dos progressos que seus pais estavam fazendo para as bandas das terras da Capitania de São José do Piauí, na pecuária.

Por outro lado, contava pontos a seu favor, a sua boa aparência, pois saíra com os traços e as parecenças da sua mãe, branca de olhos azuis, de estatura considerada alta, em contraponto aos padrões baianos de seu pai, onde os homens mediam de 1.55 a 1.60cm de altura. A sua genitora era uma mulher meiga, de pele aveludada, rosto afilado, nariz aquilino, cabelo louro ondulado, com cintura fina e ancas largas, com altura de aproximadamente 1.80, enquanto seu pai era do tipo cafuzo (mistura de negro e índio), estatura baixa, olhos amendoados escuros, cabelos encaracolados, medindo aproximadamente 1.60 de altura, porém, com personalidade marcante.

Com estas vantagens a seu favor, o jovem Clariano logo se enamorou de uma prima de nome Izabelinda, tendo recebido total aprovação de seus tios, os pais da moça. Correu o tempo para o providencial conhecimento dos noivos e por fim o casamento. Entre o namoro, o noivado e o casamento, transcorreram 12 meses, durante os quais o jovem galã foi hospedado e sustentado com muito gosto pela família da noiva, que por outro lado, via com bons olhos o fato de estar casando uma de suas filhas com um rapaz que tinha origem e seus pais tinham posses. Àquela época, o referencial de riqueza e fausto estava associado à posse de terras e gado, e a Capitania do Piauí despontava como um celeiro de grandes fazendas e ricos fazendeiros.

Assim, o jovem Clariano, era visto como um excelente partido para a jovem Izabelinda, cuja família não dispunha de vultuosas posses. Por outro lado, o jovem Clariano dominava a arte da boa conversa e do convencimento. Sabia ler, fazer contas de somar e subtrair, lia romances de cordel com maestria e interpretava como um bom ator de teatro. A família da noiva foi facilmente convencida pelo astuto jovem a realizar o casamento dos dois pombinhos apaixonados. Com muito crédito perante a prelazia local, não foi difícil abreviar o prazo de “correr os banhos” para o casamento religioso.

Após dois meses de casado e quatro meses de viagem, Clariano resolveu retornar para seu lar, em viagem que lhe consumiu mais 30 dias. Ao chegar, com toda a pompa e circunstância, informou aos seus pais que se casara com a sua prima Izabelinda. O pai logo cuidou de mandar construir uma boa casa para o casal em uma de suas propriedades, mobiliou, comprou todo o enxoval e o acompanhou a Pernambuco para ir buscar a noiva e selar de vez a aliança entre as duas famílias.

Retornaram os recém-casados, fizeram uma animada festa para a família e toda a sociedade das fazendas vizinhas. O jovem Clariano, no entanto logo programou nova viagem desta vez para visitar a sua avó materna que residia em terras da Via de Senhor do Bonfim, na Bahia. Nessa visita a sua avó Clariano ficou 6 meses e gastou mais dois meses na viagem, totalizando oito meses. Com sua avó Clariano aprendeu as artes da reza e da fabricação de meizinhas para amenizar os efeitos da diarreia, febre de mal olhado, espinhela caída, diflucio, sezão, impaludismo, barriga d’água, sapiranga,(doença dos olhos) etc, principalmente em crianças e mulheres grávidas. Ainda na sua estada na casa da avó Clariano aprendeu a arte do artesanato de palha de carnaúba, na fabricação de cestos, abanos, côfos e paneiros.

Seis meses depois Clariano estava de volta, com muitas novidades e aí lembrou-se que o seu sogro presenteara a ele e Izabelinda com um belo potro que pelo tempo já tinha se tornado um bonito cavalo. Por outro lado, a esposa Izabelinda a essa altura se encontrava grávida do primeiro filho do casal. Clariano imediatamente levantou âncora em direção a Olinda para ir buscar o presente do casal. Nessa viagem se foram mais seis meses entre ida e volta, de modo que quando o mesmo retornou o seu primeiro filho já tinha nascido e estava com 3 meses de idade.

Como o jovem Clariano não era mesmo afeito à lida do campo e já contava com duas qualificações que eram o oficio das rezas e a elaboração e receitação de meizinhas, bem como a confecção de cestos e abanos, e mais a leitura de histórias de valentias dos romances de cordel, botou o pé na estrada prestando assistência às famílias da região que tivessem algum ente adoentado, levando os cestos e os paneiros para presentear as famílias, levando também raízes, cascas de árvores e folhas para fazer infusões de meizinhas, chás, banhos, lambedores e outros remédios, bem como os romances de cordel para ler e divertir as famílias enquanto aguardavam a melhora dos parentes. A cada viagem que fazia, mais famílias eram atendidas e confortadas. Clariano tinha uma boa conversa e sabia motivar as pessoas. Estava sempre atualizado com as últimas notícias do estado e do país e era bom contador de causos. Rezava em crianças e adultos, apadrinhava batizados e casamentos e confortava famílias em velórios.

Desta forma, ia tratando da saúde física e psicológica de crianças e adultos, velhos e mulheres, tanto no estado do Piauí como nos estados vizinhos. Não cobrava nada e fazia este serviço com o maior prazer, fazendo amizades e distribuindo solidariedade por onde passava. Era um verdadeiro agente de voluntariado sem fronteira. E assim por toda a sua vida priorizou o atendimento às pessoas com assistência à saúde e promoção do divertimento através da leitura que só ele dominava, negliciando até mesmo a assistência a sua própria família. Um exemplo disso foi quando para o nascimento de sua quarta filha, ele foi buscar a parteira e quando voltou a criança já tinha seis meses de idade.

Outra vez, saiu de casa em abril com destino a cidade de Canindé no Ceará, para pagar uma promessa a São Francisco, mas antes fez escalas em Crateús, Camocim, Sobral, chegando ao seu destino em outubro. Após pagar a promessa seguiu viagem para Fortaleza, onde embarcou em uma aeronave da FAB e foi atender pessoas em São Luís do Maranhão. Nesta viagem saiu de casa em Abril e retornou em dezembro.

No fim da vida, já esgotado, Clariano tentou fazer uma viagem nos arredores da sua morada, mas morreu à margem do rio Parnaíba, provavelmente tentando embarcar em uma embarcação a vapor como o fizera tantas vezes. Os comandantes de barcos contavam por muito tempo, que ao passarem a noite naquele lugar, de longe avistavam um velho de branco, acenando com um lenço na barranca do rio como que pedindo carona.

Um barco inadvertidamente se aproximou, o piloto ficou incandiado com uma luz muito forte e acabou batendo na barranca do rio, espatifando-se e naufragando. Esse acidente ficou conhecido como o último milagre do velho Clariano, pois nenhum dos passageiros se afogou. O povo da região garante que ele prestou assistência a todos os passageiros, mais uma vez, como fizera por toda a sua vida.

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