AMAZÔNIA: Ciclo da Borracha
trabalho,
sonhos e desilusões
A
traição dos índios Caxinauás
O estado do Acre atraiu primeiramente as
maiores levas de trabalhadores nordestinos empurrados pela seca de 1915(*), mas
principalmente pela opulência das suas florestas de seringueiras que eram muito
afamadas em produtividade de látex. Essa, no entanto, era extremamente
produtiva porém, tinha um problema. Os índios Caxinauás(**), ferozes e antropófagos.
Durante anos, aquele pedaço de mata permaneceu
virgem, sem exploração e sem que ninguém tivesse coragem de desbravá-lo. Além
de ser muito isolado, havia uma maloca desses temidos silvícolas, que
amedrontavam os seringais, roubando, matando, depredando o que encontrassem. Em
compensação, ninguém conhecia pedaço de terra mais rico de borracha. As
seringueiras seduziam os seringueiros. Diziam: que pena. Aquilo é uma bola de
ouro! Mas...o diabo é quem vai lá?
Até que um dia, Zé de Castro e Zé Pretinho,
dois seringueiros corajosos e trabalhadores, queixaram-se ao patrão de que suas
estradas, já exauridas pelo trabalho de anos, quase não davam leite. E pediram
para trabalhar naquela colocação ainda virgem. O patrão ponderou-lhes o arrojo
do empreendimento. Mas nenhum dos dois temia careta de índios. Estavam
dispostos a afrontar o perigo e explorar aquela mina. Compraram dois rifles
bons, farta munição de balas e seguiram rumo ao fundo do seringal, para a
perigosa aventura de morrer ou voltar ricos.
Zé de Castro e Zé Pretinho andaram o dia
inteiro. Antes do anoitecer atingiram a divisa convencional, onde, com as
últimas estradas, termina a propriedade do patrão e começa a dos silvícolas,
primitivos donos de tudo aquilo.
Na manhã seguinte, muito cedo, os machados
entraram em ação, derribando a mata. Aberta a clareira, nela construíram uma
pequena barraca. E iniciaram a abertura das estradas de seringa na mata virgem.
Atentos a alguma surpresa dos índios, trabalhavam sempre juntos e com muita
cautela.
Durante a noite, revezavam-se na defesa comum.
Enquanto um dormia, o outro velava, sentado na rede, rifle na mão, bala na
agulha, ouvido à escuta.
Desconfiados e traiçoeiros, os Caxinauás viviam ocultos, durante o
dia. Sua presença se fazia sentir, porém, de maneira bastante esquisita: zumbir
de setas atiradas a esmo, gritos estridentes, correria pela mata.
Às vezes os seringueiros encontravam a estrada
interceptada pelo cruzamento de dois ramos, fortemente amarrados com cipós. Era
uma terminante proibição de passagem por ali. Não se intimidavam. A golpes de
terçado, cortavam os cipós e prosseguiam para o trabalho.
À noite os índios vinham aos bandos, rodeavam a
pequena barraca e faziam grande algazarra, imitando canto de aves e rugir de
animais ferozes. Talvez devido à atitude pacífica dos seringueiros, tais
ameaças foram, aos poucos, diminuindo. Os Caxinauás
se tornavam menos ariscos. Já se deixavam ver, embora de longe, pescando no
igarapé. E não tardaram os presentes, os mais interessantes. Não raro, os
seringueiros encontravam, pulando na estrada, bonitos peixes pescados vivos e
ali colocados, momentos antes de sua passagem. Outras vezes, eram embiaras(*), ou bandas de veados, ainda
sangrando que os índios penduravam nas árvores, perto da barraca.
Por prudência, os seringueiros não comiam
daquelas oferendas, que bem podiam estar envenenadas, mas, jeitosamente foram
captando a simpatia dos perigosos vizinhos, que, embora desconfiados, já
apareciam na barraca em pleno dia, recebiam presentes dos seringueiros e, aos
poucos, iam se fazendo entender, misturando à sua algaravia algumas palavras de
nossa língua.
Tudo marchava bem. Os dois seringueiros estavam
contentíssimos: ótimas estradas; leite excelente; embaixo da barraca, as pelas
de borracha causavam inveja pelo tamanho descomunal; e, para coroar tanta
sorte, até o perigo dos índios parecia definitivamente removido, a julgar pelas
demonstrações de uma camaradagem que se tornava cada dia mais estreita. Mas...ninguém
se fie em índio!
Uma tarde, Zé de Castro volta do trabalho e
encontra numeroso grupo de Caxinauás sentado
no terreiro da barraca. Não se surpreendeu. Aquelas visitas já se tornavam
frequentes. Cumprimenta-os alegremente e vai defumar o leite. Os índios o
acompanham até a porta do defumador.
Sentado de costas, Zé de Castro conversava com
eles, enquanto trabalhava. Com uma das mãos, gira o cavador, lentamente sobre a boca do buião, que
vomita rolos de fumaça. Ao lado a grande bacia cheia de leite de seringa. A
cada cuia despejada, a borracha cobre-se de nova capa branca, que rapidamente
se solidifica, tornando-se amarela, pela ação da fumaça do Ouricuri.(*).
Atrás dele, os Caxinauás trocam olhares significativos. De súbito, um dos mais
fortes empunha um enorme machado e, de um só golpe, abre em bandas a cabeça do pobre
seringueiro. Apanhado de surpresa, Zé de Castro não solta nem um gemido sequer.
Cai pesadamente de bruço, dentro da bacia. O crânio aberto, a massa encefálica
derrama-se e o sangue jorra, avermelhando a brancura do leite.
Nisto Zé pretinho vem chegando da mata. De
relance, compreende tudo e corre para o defumador, em socorro do companheiro.
Os índios vêm ao seu encontro, em atitude agressiva. Desembainhando o terçado,
Zé Pretinho prepara-se para reagir. Inútil tentativa. Os índios conseguem
segurá-lo. Um deles toma-lhe o terçado e vibra-lhe dois golpes na cabeça.
Embora pouco profundos, os ferimentos são
grandes. O sangue inunda-lhe o rosto e escorre pela roupa. Vendo-se sozinho e
ferido, o seringueiro tem uma feliz lembrança: desabotoa-se rapidamente e, num
repelão, consegue escapar em desabalada carreira, deixando nas mãos dos índios
a blusa ensanguentada. Enfurecidos, os Caxinauás
tentam persegui-lo.
Mas Zé Pretinho era bom corredor. Protegido
pela escuridão da noite abandonou a estrada e embrenhou-se na mata. Logo
adiante, encontrou o despenhadeiro de uma recente terra-caída. Foi sua
salvação. Atirou-se por ali abaixo, aos trombolhões, e ganhou distância,
desorientando os índios.
Enquanto o Zé Pretinho corria, o sangue jorrava
dos ferimentos. De quando em vez, ele parava alguns instantes, para retirar os
coágulos que, empapando os cabelos, desciam pelo rosto e lhe dificultavam a
visão. E continuava a correr, a correr, como se ainda ouvisse o tropel dos
índios, no seu encalço. Em marcha normal, qualquer homem gasta um dia, naquele
percurso. Ele fez em menos de seis horas. Antes de meia noite, chegou ao
barracão, completamente extenuado.
Bateu à porta. O patrão foi abrir e assustou-se
ao ver entrar aquele vulto irreconhecível. Todo ele, da cabeça aos pés, era um
só coágulo de sangue. Fraco, esgotado pelo cansaço e pela hemorragia, a muito
custo, em frases entrecortadas, relatou o ocorrido. Na manhã seguinte, o patrão
mandou numeroso grupo de homens, bem armados, sepultar o cadáver e trazer a
bagagem dos dois seringueiros.
Encontraram apenas o corpo de Zé de Castro. A
cabeça, os índios haviam levado, como troféu. Cavaram a sepultura ali mesmo, no
terreiro da barraca, tal a convicção de que ninguém mais se atreveria a morar
naquele pavoroso ermo.
Informações
complementares:
**Os índios caxinauás, também chamados de caxinauas e Kaxinawá, são
uma etnia indígena sul-americana pertencente à família
linguística pano.
Habitam as regiões de floresta tropical no leste peruano (do pé dos Andes até a fronteira com
o Brasil) no estado do Acre, abarcando a área do Alto Juruá e Purus e o Vale do Javari, sendo mais numerosos na
região brasileira que na peruana.
Autodenominam-se huni
kuin (que significa "homens verdadeiros" ou "gente com
costumes conhecidos"). A palavra "kaxinawá" significa,
literalmente, "povo morcego", "povo canibal" ou "povo que anda
à noite”.
Os caxinawás
constituem a mais numerosa população indígena do Acre,
com aproximadamente 7 535 indivíduos (segundo o censo de 2010). Suas aldeias encontram-se mais
precisamente nas áreas
indígenas Alto
Rio Purus, Igarapé do Caucho, Katukina/Kaxinawá, Kaxinawá da Colônia 27,
Kaxinawá do Rio Humaitá, Kaxinawá do Rio Jordão, Kaxinawá Nova Olinda,
Kaxinawá/Ashaninka do Rio Breu e Terra Indígena Praia do Carapanã, além
do Peru.
*embiara ou embira – é o nome de uma fibra extraída da casca de algumas árvores, para a confecção de
barbantes, cordas ou simplesmente para amarrar alguma coisa.
**Ouricuri.
uma espécie de palmeira nativa da
região nordeste mas também ocorre no Norte, especialmente no estado do Acre.
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