Porto Velho, 11 de dezembro de 2018
AMAZÔNIA: Ciclo da Borracha
A breve
alegria de Zé Ricardo
Essa é a história de uma situação que se repete
na região amazônica. A sucessão de ciclos econômicos sem nenhuma política de
governo, seja federal, seja estadual. Tem sido feito tudo na improvisação. Foi
assim do ciclo da borracha para o madeireiro, do madeireiro para a agricultura,
da agricultura para a pecuária e da pecuária para a soja. Estamos sempre
enterrando uma economia e abrindo exploração de outra, tudo na base do mais
absoluto extrativismo.
Acompanhem, pois a história desse seringueiro
que deve vivido lá pelos idos de 30 e que viu o auge do ciclo da borracha e que
ao findar aquele período foi impelido a explorar madeira, sem nenhum
conhecimento e preparo, o que resultou em um grande desastre como se pode ver à
frente.
Zé Ricardo abica a prôa da montaria no tijuco e
pula em terra. Lá no céu, em longa e sinuosa fila, um bando de jaburus corta o
espaço, rumo ao sul. Imóvel, franzindo o sobrolho o caboclo acompanha com a
vista o voo dos pernaltas e resmunga:
- T’esconjuro, peste!
Depois, põe o remo no ombro e sobe o barranco,
num choutinho miúdo.
Anoitece. Para o lado da nascente, algumas
estrelas piscam por cima da mata, olhando a agonia do sol. Do terreiro da
barraca, um cãozinho magricela corre ao encontro do dono, abanando alegremente
a cauda. Zé Ricardo entra em casa sutilmente, para não fazer ruído.
Gemidos abafados vêm, a intervalos, do quarto
vizinho, separado por frágil parede de bambú. A porta do quarto entreabre-se e deixa
passar uma cabeça de velha, envolta na fumaça do cachimbo.
- Como vai ela, comadre?
- Drumiu uma madornazinha; acordou agora –
respondeu a velha.
– Trôuve as encomenda?
Sem responder, Zé Ricardo entrega à velha
parteira o que fora buscar no barracão: um pacote de alfazema, duas velas e um
pequeno vidro com óleo de amêndoa.
- Na cozinha tem bóia feita: feijão e pirarucu
– disse a velha, entrando para o quarto. Zé Ricardo não tinha fome. Tomas
apenas uma xícara de café. Depois, corta tabaco, faz um cigarro e senta-se,
fumando, à porta da barraca.
Numa visão retrospectiva, vários fatos de sua
vida vão lhe desfilando pelo pensamento: sua mocidade no sertão nordestino; seu
casamento na humilde capelinha da vila; o espetáculo dantesco da seca, aniquilando
tudo; o êxodo da população sertaneja; a longa viagem para o Acre; o imundo
gaiola repleto de emigrantes, subindo o Amazonas, o Juruá, o Tarauacá, até as
cabeceiras dos últimos afluentes; a
chegada ao seringal; a luta do brabo no desalento dos primeiros meses,
experimentando as surpresas da selva feroz e dominadora; o nascimento do
primeiro filho, agora já quase rapazinho. Por um capricho da natureza, após
longo intervalo de dezesseis anos, a mulher vai lhe dar outro filho. Um
transtorno no ritmo de trabalho da pequena família.
Antes e extração do látex constituía a única
ocupação do seringueiro. Mas com a crescente desvalorização da borracha, a vida
tornou-se difícil, os saldos foram diminuindo e os débitos aumentando em cada
fábrico.
Caboclo honesto, Zé Ricardo logo compreendeu a
necessidade de recorrer a outra fonte de receita, para equilibrar as finanças e
manter o conceito de seu nome. A extração de madeira, indústria incipiente,
seduzia os seringueiros e estava desviando inúmeros braços, exaustos do
trabalho improdutivo da borracha. Foi uma revolução, uma verdadeira febre de
entusiasmo, abalando os velhos hábitos dos seringais. O comércio incrementou-se
com a chegada de vários representantes de companhias exportadoras, disputando a
primazia na compra de cedro e águano, madeiras abundantíssimas na região.
Zé Ricardo encorajou-se. Foi entender-se com um
dos compradores e fechou contrato para vinte tóros. Por conta, recebeu certa
importância em mercadoria. Grande estorvo, porém, logo surgiu: ocupados ele e o
filho na extração da madeira, quem se encarregaria do trabalho da seringa¿ Abandonadas,
mesmo por alguns meses, as estradas não tardariam a cerrar, invadidas pelo
mato. Ademais, a nova indústria era apenas uma tentativa, visando compensar a
baixa da borracha.
Confirmando os nobres predicados da mulher
nordestina, Isabel ofereceu-se para substituir o marido e o filho no árduo
trabalho da extração da seringa. Ela sozinha, tomaria conta das estradas. E,
cada manhã, depois que Zé Ricardo e Pedro partiam para a mata, a corajosa
mulher saía com o balde, rifle a tiracolo, e sumia na boca da estrada. Às vezes
o Faísca, o esperto cãozinho que lhe servia de companhia, metia-se pela mata.
Desaparecia. Daí a momentos ladrava longe, acuando alguma anta ou um bando de
porcos selvagens.
Isabel interrompia o trabalho, deixava o balde
com leite ao pé da seringueira e, guiada pelos ladridos, seguia cautelosamente,
rifle em punho, bala na agulha, olhar atento. Um tiro reboava dentro da mata. O
jantar daquele dia estava garantido. Ao anoitecer, os três regressavam à
barraca. Enquanto Isabel preparava a refeição, Zé Ricardo defumava o leite que
ela colhera. Na monotonia desse labor quotidiano, decorreram meses, até que o
estado de Isabel, em adiantada gravidez, obrigou-a a ficar em casa.
A extração da madeira prosseguiu. Às vezes, Zé
Ricardo desanimava ante o arrojo do seu empreendimento. Com a ajuda exclusiva
do filho, receiava não poder cumprir o contrato. Vinte toros não era trabalho
apenas para dois homens. Mas, estava endividado e com a palavra empenhada. Não
podia retroceder. Para adiantar serviço, permutou alguns dias de trabalho com
quatro rapazes, seus vizinhos, também madeireiros. Quando o inverno chegou, as
árvores estavam roladas em toros, ainda dispersas no centro da mata. A
derrubada era feita a machado. Não raro, os troncos estão circundados de sapupemas, espécies de cipós achatados,
atingindo três e mais metros de altura.
É um estorvo. Aquelas excrescências duplicam a
grossura da árvore. Derribá-la ao rés do chão seria trabalho exaustivo e
inútil, de vez que as sapupemas são
imprestáveis para toros de madeira. Recorre-se então ao mutá, espécie de jirau ou andaime de paus toscos, em roda do
tronco, e que permite derribá-lo na haste, acima das sapupemas.
Feito o mutá,
sobre ele se instalam os trabalhadores, equilibrando-se como podem. E os
machados entram em ação, dias a fio. Golpes firmes, cadenciados por intervalos
em que se ouve o ranger do gume no cerne. O suor escorre em bátegas pelas costas
desnudas dos trabalhadores. Em dado momento, alguns estalos anunciam os
primeiros estertores do gigante vegetal, ferido de morte pela lei da gravidade.
Mais algumas machadadas, a árvore oscila, inclina-se para um dos lados.
Fugindo ao perigo de um esmagamento, os homens
pulam do mutá e correm, enquanto o colosso tomba pesadamente ao solo,
produzindo um grande ruído, que reboa longe, dentro da mata. Quem alí chegar,
dificilmente reconhecerá o local. Em sua queda fragorosa, o águano arrasta as
árvores adjacentes, cujos galhos estão entrelaçados nas alturas, ligados por
fortes liames de cipós e parasitas. Onde, há pouco a floresta se ostentava
exuberante e sombria, existe agora, uma enorme clareira sobre a qual o sol
despeja jorros de luz.
Dir-se-ia que algum duende travesso e
galhofeiro por ali passara, comprazendo-se em destruir tudo. Sob o montão
desordenado de troncos partidos, galhos retorcidos, raízes arrancadas, o chão
esburacado e coberto de gravetos e cavacos. E o gigantesco águano com a fronde
mergulhada no travesseiro, jaz deitado naquele leito de ruinas, donde sob um
cheiro forte de terra revolvida e folhas amarfanhadas.
Desgalhada a arvore, é o tronco dividido em
toros de vinte ou trinta palmos. Começa então, a segunda fase, quiçá a mais
difícil do trabalho: o arrastamento dos toros para o leito do igarapé. Alí
aguardam o repiquete que os conduz ao rio, para serem entregues ao comprador.
Nem sempre é possível encontrar madeira de lei à margem dos igarapés. Para o
arrastamento dos toros, abrem-se grandes estradas, com oito ou dez metros de
largura, numa extensão de um, dois ou mais quilômetros, conforme a distância da
árvore ao igarapé mais próximo. Essas estradas parecem avenidas rasgadas no
centro da floresta.
Derribada a mata, toda aquela larga faixa é
desobstruída. Os troncos são aparados ao rés do chão e arrancadas todas as
raízes que possam dificultar a passagem dos toros. Inicia-se o arrastamento,
por meio de longos cabos de aço. Uma das extremidades do laço enlaça o toro, e
a outra é presa no engenho, um carretel giratório movido pelo braço dos
madeireiros.
À proporção que o engenho roda, o cabo vai se
enrolando no carretel e o toro marcha vagarosamente, empacando aqui, numa
saliência do terreno, enganchando ali, numa raiz que escapou do machado. Atrás,
vai deixando largo sulco, cavado no solo pela compressão do enorme peso. O
trabalho é perigoso. As vezes, a um daqueles puxões, o cabo retesado parte-se,
e a ponta, impelida com força, vai fustigar os operários, retalhando rostos,
decepando membros.
Sentado à porta da barraca, Zé Ricardo continua
absorto a fumar. Auxiliado apenas pelo filho, atrasara-se muito no serviço. Só
em fins de março conseguir terminar o arrastamento da madeira. Atestando a
pertinácia do seu esforço, vinte bonitos toros aguardavam água, no leito do
igarapé. Aquilo representava sua liberdade econômica. Confiando na excelente
qualidade dos toros, Zé Ricardo fazia cálculos. Pagaria a mercadoria recebida
por conta do contrato, liquidaria seu débito com o patrão do seringal. E já
planejava melhor safra para o ano seguinte, com uma numerosa turma de
trabalhadores madeireiros, chefiada por ele.
Logo, porém, um grande receio desmorona seus
planos: - E se não chover mais?...
Com a madeira ainda na mata, perdera as
enchentes de janeiro, fevereiro e março. Abril deu apenas ligeiras enxurradas
que não conseguiram, sequer, mover os toros. Em maio costuma haver boas
chuvadas, para o repiquete do “lava-praia”. E assim sempre apelando para o dia
seguinte, decorreu a primeira quinzena de maio, sem um pingo d’água.
Fitando o céu estrelado, na ânsia de vislumbrar
algum sinal de chuva, Zé Ricardo lembrou-se do bando de jaburus que avistara, à
tardinha, quando voltava do barracão. Jaburu é prenuncio certo de verão. E o
pobre caboclo sofre, naquela noite...Sofre a preocupação de perder seu
trabalho; sofre, ouvindo os gemidos da esposa, sua boa e dedicada Isabel, no
doloroso labor da maternidade; sofre, com pena do filho, o seu querido Pedro,
dormindo na mata sozinho.
Como a barraca distava cerca de duas horas do
local onde estava a madeira, Zé Ricardo fez um taperi no barranco e ali passou
a dormir, em companhia do filho. Caso viesse alguma chuva, durante a noite,
eles lá estariam, a tempo de aproveitar a água e guiar os tóros igarapé abaixo.
Mas o estado de Isabel requeria a presença do marido em casa. Pedro foi
obrigado a ficar só no taperi.
O coração do pai ficava preocupado. Uma fera
podia atacar o rapazinho, durante o sono. Pedro era um filho muito especial.
Tinha apenas dezesseis anos, mas possuía qualidades de um homem. Zé Ricardo
costumava chama-lo, com orgulho, “o meu braço direito”. E ele merecia.
Trabalhador, ativo, obediente e amigo do pai, jamais se queixara. Estava sempre
disposto para os mais árduos serviços, a qualquer hora do dia ou da noite.
Abstraído nesses pensamentos, Zé Ricardo não
notou uma grande nuvem, escura e pesada que subia da nascente. Aos poucos, uma
aragem começou a soprar, sutil a princípio, depois mais forte, sacudindo a copa
das árvores. Impelida pelo vento, em breve a nuvem cobria todo o céu, já
riscado de relâmpagos, prenunciando uma borrasca iminente. A natureza amazônica
preparara, com requintes de gala, mais um soberbo espetáculo da luta dos
elementos. Não tardaram os primeiros pingos, fortes, pesados, como gotas de
chumbo estalando sobre a palha da barraca.
E por fim, a chuva arreia, torrencial, em catadupa
diluviana. Lufadas de vento, assobiando no beiral, penetrando pelas frinchas
das paredes de paxiuba, atiravam borrifos d’água dentro de casa, molhando tudo.
Esquecidas as tristes preocupações que há pouco, o acabrunhavam, Zé Ricardo não
cabe em si, de contente. Aquele aguaceiro é a salvação de sua madeira, presa no
fundo do igarapé. Aquela chuva foi enviada pelo céu para a sua redenção. Lembra-se
no entanto, do filho, enfrentando sozinho na escuridão da noite, os perigos da
tempestade e a fúria da correnteza, arrastando os toros.
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