AMAZÔNIA: Ciclo da Borracha
A
falência de um grande seringalista
Essa
história é mais uma das que selecionamos no livro SAPUPEMA – Contos amazônicos,
do escritor José Potyguara, que reproduzimos por explorar esse tema da má
gestão empresarial que também deve ter tido muitos exemplos como este no
período da opulência da borracha, onde muitos homens se aventuraram a montar
negócios e por incompetência, irresponsabilidade e por outras razões foram à
falência.
O
velho Leocádio foi sempre um desastrado. Em 1910, quando a borracha atingiu
cotações nunca antes imaginadas, ele possuía quatro seringais. Ficou rico.
Adquiriu crédito. Comentava-se que estava milionário. Não era mais o Leocádio.
Passou a ser o coronel Leocádio. Ignorante
com manias de grandeza não sabia mais o que fazer de tanto dinheiro. Encheu-se
de vaidades, deu para importante e acabou arrendando os seringais, a fim de
fixar residência em Belém.
Tudo
isso foi feito contra a vontade de dona Sancha, a esposa, senhora simples,
bondosa e sensata. - Que vamos nós ver em Belém, Leocádio? - Ponderava ela. –
Fiquemos mesmos por aqui, administrando nossos seringais. Nada como o olho do
dono!
-
Qual que nada mulher! – respondia ele. – Estou farto de vegetar no mato. Essa
vida selvagem não é para mim. Nem sei como eu suporto isso! Agora sim: vou
viver, vou gozar, vou ter importância! E foi levando a esposa, a contragosto, e
a filhinha, a Izaura, que tinha na época uns oito anos.
Mal
chegou a Belém, começou a fazer asneiras. Comprou um bonito palacete, na praça
Batista Campos. Mobiliou-o luxuosamente. Só no prédio e nos móveis foram-se
trezentos contos de reis. Ricamente instalado, levando vida faustosa, de festas
e banquetes, sua mesa estava sempre repleta de exploradores, peritos na arte de
bajular. Integrando o tipo perfeito do coronel, deu também para conquistador. Feio,
velhusco, nem o luxo da indumentária conseguia atenuar o físico mal amanhado.
Mas, dinheiro tudo compensa: encobre defeitos, reabilita reputações. Após
várias aventuras donjuanescas, apaixonou-se por uma loura francesa que viu,
certa vez num camarote de teatro.
Foi sua desgraça. Inteligente
e prática, a linda e diabólica mulher percebeu na paixão do rico seringueiro
uma polpuda fonte de exploração. A princípio, fingiu desinteresse. Fazia parte
do plano: simular desprezo para ser mais desejada. Leocádio insistiu. Afinal,
ela aquiesceu e, ardilosamente, cercou a primeira entrevista de tão exageradas
cautelas que o bobo velho quase sentiu remorsos, convencido de haver
prostituido uma virgem. Não passava de uma perigosa sanguessuga, que lhe
consumia as energias físicas e os depósitos bancários, e, depois, zombava dele
nos braços de um jovem amásio, que ela sustentava, luxuosamente com o dinheiro
do coronel.
Certa
noita, chegando para a habitual visita, foi surpreendido pela insólita
novidade: farta de dinheiro e mais farta ainda, de suportar o amor baboso do
velho, a francesa embarcara, na véspera, com destino à Europa. Leocádio ficou
desnorteado. Não compreendia tamanha ingratidão. Por que o abandonara, assim, a
mulher que ele tanto queria e por quem tanto fizera? Os dias para ele
tornaram-se monótonos, enfadonhos. Não suportou as saudades da francesa.
Resolveu segui-la.
Pretextando
negócios comerciais, embarcou no primeiro transatlântico, rumo à Europa.
Passeando sua ignorância, por lá demorou quase um ano. Percorreu as principais
cidades da França, procurando, indagando e ninguém lhe dava notícias da sua
loura perdição. Indubitavelmente
fugia dele, e é bem provável que tenha mudado de nome, para despistá-lo. Essa
longa peregrinação custou caro a Leocádio. Além da exploração a que o expunha
sua grande ignorância, levada a ridículo, num país estrangeiro, o homem não
tinha mãos a medir. Hospedava-se nos melhores hotéis, gastava à largura da
boca, tentando afogar em prazeres a pertinaz saudade da francesa, que jamais
tornou a ver.
Um
dia recebeu telegrama da esposa, chamando-o com urgência. Consumida pelas
angústias e preocupações que lhe causavam as notícias das loucuras do marido, dona
Sancha enfermara gravemente, sendo recolhida a um hospital. Decepcionado, ruído
de tédio, esbravejando contra a falsidade das mulheres, em geral, e das
francesas, em particular, Leocádio voltou ao Brasil onde maiores aborrecimentos
o esperavam:
A
borracha, passado o período áureo, começava a desvalorizar-se assustadoramente.
Em face disso, o arrendatário dos seringais resolvera rescindir o contrato,
receando a impossibilidade de cumprir as cláusulas, lavradas sob pressupostos
otimistas. A situação seria remediada se o proprietário fosse, pessoalmente,
reassumir a direção dos seus negócios nos seringais. Mas, Leocádio estava
perdido. O conforto ocioso e enervante da vida que vinha levando viciara-o,
inutilizando-o para sempre. Não era mais homem para enfrentar a luta e vencer
dificuldades.
Com
o resto de capital que ainda possuía no banco, supriu os seringais de
mercadoria, mandou para lá um gerente e deixou-se ficar comodamente em Belém, continuando
a mesma vida de prazeres e mulheres. O tal preposto por ele enviado, além de inexperiente,
era *estroina como o patrão.
Sem energia, nem capacidade administrativa, adotou um programa de festas, sob
pretexto de estimular o pessoal. Eram verdadeiros bacanais, onde a bebedeira
desenfreada provocava rixas de consequências funestas. Vários desses furdunços
terminaram em grossa pancadaria, com muito sangue e as vezes até mortes. Em
pouco tempo a anarquia dominou. Ninguém trabalhava. O gerente, companheiro de
farras, não era respeitado. Os seringueiros, endividados, fugiam sem a menor
satisfação.
Resultado,
no fim do primeiro ano, os seringais estavam sem mercadoria e sem braços. E o
coronel Leocádio que esperava uma safra compensadora, recebeu só um bocadinho
de borracha e uma carta do gerente, cheia de evasivas. Ficou indignado. Teve
ímpeto de embarcar no primeiro gaiola e ir esbofetear o safardana. Conteve-se,
porém. A simples lembrança de uma viagem ao interior apavorava-o. Não se sentia
com coragem de abandonar o conforto da vida citadina. Mas como continuar ali,
sem dinheiro? Os saldos bancários tinham se esgotados. Resolveu tentar o
comércio de borracha. De simples produtor, quis passar a exportador.
Alguns
amigos o aconselharam a não se meter nisso. De fato a época era a pior
possível, em face da desvalorização do produto. Mas o homem era vaidoso.
Torturava-o a sede de importância. Queria fazer movimento, dominar a praça,
enriquecer. Tão arriscada empresa requeria capital e experiência. Pra levantar
dinheiro hipotecou todos os seringais. Montou escritório, alugou armazém e
pôs-se a comprar borracha. De início, enquanto havia dinheiro, tudo marchou sem
novidade. Borracha baixando lentamente – dez tostões hoje, dois mil réis
amanhã, - e Leocádio continuando a comparar e a armazenar.
-
Aquilo não apodrece, o rato não rói, a traça não come! – dizia ele. – Borracha
tem que dar dinheiro. Ora se dá! Dá e não custa! E quando lhe diziam que os
outros compradores estavam se retraindo:
-
São uns medrosos! Eu continuo comprando e vou ganhar dinheiro. Sei o que estou
fazendo! Ah! Bossa comercial eu tenho. Assim, esperando um dia e mais outros, o
capital, que não era muito, acabou-se. Borracha baixando sempre e Leocádio com
o armazém cheio. Parou a compra, mas não perdeu a esperança. Passou a recusar
todas as ofertas. Por outro lado, não vendia um quilo. O diabo é que não tinha
mais dinheiro. Estava ficando escasso até para as suas despesas pessoais, que
não eram pequenas. Não sabia gastar pouco e precisava manter a mesma linha, o
mesmo luxo, a mesma vida de ostentações. Embora com prejuízo, teve que vender
pequena partida de borracha armazenada. Isso, porém, muito às ocultas, para que
os colegas não soubessem. Não queria dar o braço a torcer. Mas, intimamente, já
se preocupava porque a alta do preço estava demorando. Diariamente, o mercado
exportador abria com cotações inferiores às da véspera. Leocádio começou a
impressionar-se. Outras partidas de borracha foram por ele vendidas, com
prejuízo, para atender às suas despesas.
Afinal,
explodiu a bomba. Vencidas as letras garantidoras, o teimoso foi obrigado a
vender, às pressas, toda a borracha, por menos da metade do custo. Comprou
sucessivamente a 15$0, a 12$0 e a 10$0, para vender a 5$0 o quilo. O apurado
ficou longe de cobrir a hipoteca. Não houve meio de evitar a falência. Foi tudo
à hasta pública: os seringais
do Acre, os móveis, o bonito palacete da praça Batista Campos.
Foi
rápida a derrocada. De um dia para o outro o vaidoso coronel Leocádio viu-se
sem seringal, sem borracha, sem casa, sem crédito. Em meio ao grande
acabrunhamento, ainda teve uma lembrança feliz: vendeu todas as joias de dona
Sancha e, por intermédio de um amigo, conseguiu arrematar, por vinte contos, um
dos seus seringais, o menor dos quatro. Foi talvez, o único gesto sensato de
toda a sua vida. Compreendendo a impossibilidade de continuar em Belém, coberto
de vergonha, falido e desprezado pelos comensais de outrora, resolveu
refugiar-se no pequeno seringal, como última tábua de salvação.
Poucos
dias depois, sem se despedir de ninguém, embarcou num gaiola, com a mulher e a
filha, rumo ao degredo. Felizmente, para elas, Leocádio soube adotar uma
atitude coerente: reconhecendo-se único culpado, não se queixava da vida
triste, da monotonia vegetativa que passaram a levar no seringal.
Também
nunca mais trabalhou. O pequeno seringal, desaparelhado, sem mercadorias, sem
utensílios, sem braços, não podia produzir, ainda mais entregue a um
proprietário sem estímulo, sem gosto e sem coragem.
Informações
complementares
* Estroina = que ou o que é inconsequente com o uso do dinheiro ou dos bens que
possui; que ou o que age levianamente, de maneira irresponsável; desajuizado.
** Hasta pública = é a alienação forçada de bens penhorados, realizada
pelo poder público, por leiloeiro devidamente habilitado, pelo porteiro ou por
um auxiliar da justiça. O porteiro hoje não é uma função muito exercida e, por
isso, muitas vezes seu trabalho é promovido pelo oficial de justiça. Ela pode
ser dar de duas formas: pela praça, quando houver, entre os bens penhorados,
algum imóvel, ou por leilão, quando todos bens penhorados forem móveis.
Considera-se a aquisição de bem em hasta pública como aquisição originária,
razão pela qual não existe nenhuma relação jurídica entre o arrematante e o
antigo proprietário do bem, assim como todos os débitos existentes subrogam-se
no preço avençado. Fundamentação: Arts. 447, 497 e 1.237 do CC - Arts.
647, III e 686 a 707 do CPC.
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