terça-feira, 11 de dezembro de 2018




AMAZÔNIA: Ciclo da Borracha


A falência de um grande seringalista

Essa história é mais uma das que selecionamos no livro SAPUPEMA – Contos amazônicos, do escritor José Potyguara, que reproduzimos por explorar esse tema da má gestão empresarial que também deve ter tido muitos exemplos como este no período da opulência da borracha, onde muitos homens se aventuraram a montar negócios e por incompetência, irresponsabilidade e por outras razões foram à falência.
O velho Leocádio foi sempre um desastrado. Em 1910, quando a borracha atingiu cotações nunca antes imaginadas, ele possuía quatro seringais. Ficou rico. Adquiriu crédito. Comentava-se que estava milionário. Não era mais o Leocádio. Passou a ser o coronel Leocádio.  Ignorante com manias de grandeza não sabia mais o que fazer de tanto dinheiro. Encheu-se de vaidades, deu para importante e acabou arrendando os seringais, a fim de fixar residência em Belém.
Tudo isso foi feito contra a vontade de dona Sancha, a esposa, senhora simples, bondosa e sensata. - Que vamos nós ver em Belém, Leocádio? - Ponderava ela. – Fiquemos mesmos por aqui, administrando nossos seringais. Nada como o olho do dono!
- Qual que nada mulher! – respondia ele. – Estou farto de vegetar no mato. Essa vida selvagem não é para mim. Nem sei como eu suporto isso! Agora sim: vou viver, vou gozar, vou ter importância! E foi levando a esposa, a contragosto, e a filhinha, a Izaura, que tinha na época uns oito anos.
Mal chegou a Belém, começou a fazer asneiras. Comprou um bonito palacete, na praça Batista Campos. Mobiliou-o luxuosamente. Só no prédio e nos móveis foram-se trezentos contos de reis. Ricamente instalado, levando vida faustosa, de festas e banquetes, sua mesa estava sempre repleta de exploradores, peritos na arte de bajular. Integrando o tipo perfeito do coronel, deu também para conquistador. Feio, velhusco, nem o luxo da indumentária conseguia atenuar o físico mal amanhado. Mas, dinheiro tudo compensa: encobre defeitos, reabilita reputações. Após várias aventuras donjuanescas, apaixonou-se por uma loura francesa que viu, certa vez num camarote de teatro.
Foi sua desgraça.  Inteligente e prática, a linda e diabólica mulher percebeu na paixão do rico seringueiro uma polpuda fonte de exploração. A princípio, fingiu desinteresse. Fazia parte do plano: simular desprezo para ser mais desejada. Leocádio insistiu. Afinal, ela aquiesceu e, ardilosamente, cercou a primeira entrevista de tão exageradas cautelas que o bobo velho quase sentiu remorsos, convencido de haver prostituido uma virgem. Não passava de uma perigosa sanguessuga, que lhe consumia as energias físicas e os depósitos bancários, e, depois, zombava dele nos braços de um jovem amásio, que ela sustentava, luxuosamente com o dinheiro do coronel.
Certa noita, chegando para a habitual visita, foi surpreendido pela insólita novidade: farta de dinheiro e mais farta ainda, de suportar o amor baboso do velho, a francesa embarcara, na véspera, com destino à Europa. Leocádio ficou desnorteado. Não compreendia tamanha ingratidão. Por que o abandonara, assim, a mulher que ele tanto queria e por quem tanto fizera? Os dias para ele tornaram-se monótonos, enfadonhos. Não suportou as saudades da francesa. Resolveu segui-la.
Pretextando negócios comerciais, embarcou no primeiro transatlântico, rumo à Europa. Passeando sua ignorância, por lá demorou quase um ano. Percorreu as principais cidades da França, procurando, indagando e ninguém lhe dava notícias da sua loura perdição. Indubitavelmente fugia dele, e é bem provável que tenha mudado de nome, para despistá-lo. Essa longa peregrinação custou caro a Leocádio. Além da exploração a que o expunha sua grande ignorância, levada a ridículo, num país estrangeiro, o homem não tinha mãos a medir. Hospedava-se nos melhores hotéis, gastava à largura da boca, tentando afogar em prazeres a pertinaz saudade da francesa, que jamais tornou a ver.
Um dia recebeu telegrama da esposa, chamando-o com urgência. Consumida pelas angústias e preocupações que lhe causavam as notícias das loucuras do marido, dona Sancha enfermara gravemente, sendo recolhida a um hospital. Decepcionado, ruído de tédio, esbravejando contra a falsidade das mulheres, em geral, e das francesas, em particular, Leocádio voltou ao Brasil onde maiores aborrecimentos o esperavam:
A borracha, passado o período áureo, começava a desvalorizar-se assustadoramente. Em face disso, o arrendatário dos seringais resolvera rescindir o contrato, receando a impossibilidade de cumprir as cláusulas, lavradas sob pressupostos otimistas. A situação seria remediada se o proprietário fosse, pessoalmente, reassumir a direção dos seus negócios nos seringais. Mas, Leocádio estava perdido. O conforto ocioso e enervante da vida que vinha levando viciara-o, inutilizando-o para sempre. Não era mais homem para enfrentar a luta e vencer dificuldades.
Com o resto de capital que ainda possuía no banco, supriu os seringais de mercadoria, mandou para lá um gerente e deixou-se ficar comodamente em Belém, continuando a mesma vida de prazeres e mulheres. O tal preposto por ele enviado, além de inexperiente, era *estroina como o patrão. Sem energia, nem capacidade administrativa, adotou um programa de festas, sob pretexto de estimular o pessoal. Eram verdadeiros bacanais, onde a bebedeira desenfreada provocava rixas de consequências funestas. Vários desses furdunços terminaram em grossa pancadaria, com muito sangue e as vezes até mortes. Em pouco tempo a anarquia dominou. Ninguém trabalhava. O gerente, companheiro de farras, não era respeitado. Os seringueiros, endividados, fugiam sem a menor satisfação.
Resultado, no fim do primeiro ano, os seringais estavam sem mercadoria e sem braços. E o coronel Leocádio que esperava uma safra compensadora, recebeu só um bocadinho de borracha e uma carta do gerente, cheia de evasivas. Ficou indignado. Teve ímpeto de embarcar no primeiro gaiola e ir esbofetear o safardana. Conteve-se, porém. A simples lembrança de uma viagem ao interior apavorava-o. Não se sentia com coragem de abandonar o conforto da vida citadina. Mas como continuar ali, sem dinheiro? Os saldos bancários tinham se esgotados. Resolveu tentar o comércio de borracha. De simples produtor, quis passar a exportador.
Alguns amigos o aconselharam a não se meter nisso. De fato a época era a pior possível, em face da desvalorização do produto. Mas o homem era vaidoso. Torturava-o a sede de importância. Queria fazer movimento, dominar a praça, enriquecer. Tão arriscada empresa requeria capital e experiência. Pra levantar dinheiro hipotecou todos os seringais. Montou escritório, alugou armazém e pôs-se a comprar borracha. De início, enquanto havia dinheiro, tudo marchou sem novidade. Borracha baixando lentamente – dez tostões hoje, dois mil réis amanhã, - e Leocádio continuando a comparar e a armazenar.
- Aquilo não apodrece, o rato não rói, a traça não come! – dizia ele. – Borracha tem que dar dinheiro. Ora se dá! Dá e não custa! E quando lhe diziam que os outros compradores estavam se retraindo:
- São uns medrosos! Eu continuo comprando e vou ganhar dinheiro. Sei o que estou fazendo! Ah! Bossa comercial eu tenho. Assim, esperando um dia e mais outros, o capital, que não era muito, acabou-se. Borracha baixando sempre e Leocádio com o armazém cheio. Parou a compra, mas não perdeu a esperança. Passou a recusar todas as ofertas. Por outro lado, não vendia um quilo. O diabo é que não tinha mais dinheiro. Estava ficando escasso até para as suas despesas pessoais, que não eram pequenas. Não sabia gastar pouco e precisava manter a mesma linha, o mesmo luxo, a mesma vida de ostentações. Embora com prejuízo, teve que vender pequena partida de borracha armazenada. Isso, porém, muito às ocultas, para que os colegas não soubessem. Não queria dar o braço a torcer. Mas, intimamente, já se preocupava porque a alta do preço estava demorando. Diariamente, o mercado exportador abria com cotações inferiores às da véspera. Leocádio começou a impressionar-se. Outras partidas de borracha foram por ele vendidas, com prejuízo, para atender às suas despesas.
Afinal, explodiu a bomba. Vencidas as letras garantidoras, o teimoso foi obrigado a vender, às pressas, toda a borracha, por menos da metade do custo. Comprou sucessivamente a 15$0, a 12$0 e a 10$0, para vender a 5$0 o quilo. O apurado ficou longe de cobrir a hipoteca. Não houve meio de evitar a falência. Foi tudo à hasta pública: os seringais do Acre, os móveis, o bonito palacete da praça Batista Campos.
Foi rápida a derrocada. De um dia para o outro o vaidoso coronel Leocádio viu-se sem seringal, sem borracha, sem casa, sem crédito. Em meio ao grande acabrunhamento, ainda teve uma lembrança feliz: vendeu todas as joias de dona Sancha e, por intermédio de um amigo, conseguiu arrematar, por vinte contos, um dos seus seringais, o menor dos quatro. Foi talvez, o único gesto sensato de toda a sua vida. Compreendendo a impossibilidade de continuar em Belém, coberto de vergonha, falido e desprezado pelos comensais de outrora, resolveu refugiar-se no pequeno seringal, como última tábua de salvação.
Poucos dias depois, sem se despedir de ninguém, embarcou num gaiola, com a mulher e a filha, rumo ao degredo. Felizmente, para elas, Leocádio soube adotar uma atitude coerente: reconhecendo-se único culpado, não se queixava da vida triste, da monotonia vegetativa que passaram a levar no seringal.
Também nunca mais trabalhou. O pequeno seringal, desaparelhado, sem mercadorias, sem utensílios, sem braços, não podia produzir, ainda mais entregue a um proprietário sem estímulo, sem gosto e sem coragem.

Informações complementares
* Estroina = que ou o que é inconsequente com o uso do dinheiro ou dos bens que possui; que ou o que age levianamente, de maneira irresponsável; desajuizado.
** Hasta pública = é a alienação forçada de bens penhorados, realizada pelo poder público, por leiloeiro devidamente habilitado, pelo porteiro ou por um auxiliar da justiça. O porteiro hoje não é uma função muito exercida e, por isso, muitas vezes seu trabalho é promovido pelo oficial de justiça. Ela pode ser dar de duas formas: pela praça, quando houver, entre os bens penhorados, algum imóvel, ou por leilão, quando todos bens penhorados forem móveis. Considera-se a aquisição de bem em hasta pública como aquisição originária, razão pela qual não existe nenhuma relação jurídica entre o arrematante e o antigo proprietário do bem, assim como todos os débitos existentes subrogam-se no preço avençado. Fundamentação: Arts. 447, 497 e 1.237 do CC - Arts. 647, III e 686 a 707 do CPC.



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