CRONICA DE
UM POVO CONDENADO A SOFRER
Soluços
solitários das almas da SECA: Recortes do Quinze de Raquel de
Queiroz...
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Encostado
a uma jurema seca, defronte ao juazeiro que a foice dos cabras ia pouco a pouco
mutilando, Vicente dirigia a distribuição de rama verde ao gado. Reses magras,
com grandes ossos agudos furando o couro das ancas, devoravam confiadamente os
rebentões que a ponta dos terçados espalhava pelo chão. Era raro e alarmante,
em março, ainda se tratar de gado. Vicente pensava sombriamente no que seria de
tanta rês, se de fato não viesse o inverno. A rama já não dava nem para um mês.
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Imaginara
retirar uma porção de gado para a serra. Mas, sabia lá? Na serra, também, o
recurso falta... Também o pasto seca... Também a água dos riachos afina, afina,
até se transformar num fio gotejante e transparente. Além disso, a viagem sem
pasto, sem bebida certa, havia de ser um horror, morreria tudo.
Uma vaca
que se afastava chamou a atenção do rapaz, que deu um grito:
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Agora, ao
Chico Bento, como único recurso, só restava arribar. Sem legume, sem serviço,
sem meios de nenhuma espécie, não havia de ficar morrendo de fome, enquanto a seca
durasse. Depois, o mundo é grande e no Amazonas sempre há borracha...
Alta
noite, na camarinha fechada que uma lamparina moribunda alumiava mal, combinou com
a mulher o plano de partida. Ela ouvia chorando, enxugando na varanda encarnada
da rede, os olhos cegos de lágrimas.
Chico
Bento, na confiança do seu sonho, procurou animá-la, contando-lhe os mil casos
de retirantes enriquecidos no Norte. A voz lenta e cansada vibrava, erguia-se,
parecia outra, abarcando projetos e ambições. E a
imaginação
esperançosa aplanava as estradas difíceis, esquecia saudades, fome e angústias,
penetrava na sombra verde do Amazonas, vencia a natureza bruta, dominava as
feras e as visagens, fazia dele rico e vencedor.
Cordulína
ouvia, e abria o coração àquela esperança; mas correndo os olhos pelas paredes de
taipa, pelo canto onde na redinha remendada o filho pequenino dormia, novamente
sentiu um aperto de saudade, e lastimou-se:
- Mas,
Chico, eu tenho tanta pena da minha barraquinha! Onde é que a gente vai viver,
por esse mundão de meu Deus? A voz dolente do vaqueiro novamente se ergueu em
consolações e promessas:
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- Em todo
pé de pau há um galho mode a gente armar a tipóia... E com umas noites assim
limpas até dá vontade de se dormir no tempo... Se chovesse, quer de noite, quer
de dia, tinha carecido se ganhar o mundo atrás de um gancho? Cordulina baixava
a cabeça. Chico Bento continuou a falar. O animal trocado com Vicente chegava
de manhãzinha. Iria nele até o Quixadá, ver se arranjava as passagens de graça
que o governo estava dando.
Recebendo
o dinheiro do Zacarias da Feira, se desfazendo da burra e matando as
criaçõezinhas que restavam, para comerem em caminho, que é que faltava? Nem
trem, nem comida, nem dinheiro...
Cordulina
levantou-se para balançar o menino que acordou chorando.
Era
madrugada. Passarinhos desafinados, no pé de turco espinhento do terreiro,
cantavam espaçadamente. a barra do dia foi avermelhando o céu.
Os
golinhas continuaram a cantar com mais força.
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A mulher
enfiou a saia e o casaco e foi cuidar do café.
Chico
Bento ficou só. Tinha-se deixado estar na rede, sentado, as mãos pendentes,
descansando os pulsos nos joelhos, o pensamento vagando numa confusa visão de
boa ventura e fortuna. Pouco a pouco, porém, com a luz do dia que entrava pelas
frinchas da camarinha, a névoa otimista foi-se adelmo; e do projeto ambicioso
só lhe ficou, triste e aguda, a melancolia do desterro próximo. Sonolenta, ainda,
a meninada se levantava, esfregando os olhos, espreguiçando-se em bocejos rasgados,
em longas distensões que lhes salientavam o relevo das costelas.
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