CRONICA DE UM POVO ESCOLHIDO PARA SOFRER
O Flagelo da Seca:
Algumas imagens estão impregnadas no
imaginário coletivo quando o assunto é a seca: o chão de terra enervado, o sol
impiedoso e o homem magro. A desolação é o sentimento que prevalece nos
primeiros momentos em que se encara a impiedosa força da natureza.
Secas
do Ceará
O
Estado do Ceará tem sido palco de grandes estiagens, que dizimaram milhares de
vidas, principalmente as pessoas mais pobres, os sertanejos em especial.
Seca de 1877 - A primeira grande seca que explode nesta “eufórica”
Fortaleza é em 1877, demonstrando um grandioso problema social. A cidade é
ocupada por sertanejos em número quase quatro vezes maior que a população.
É nesta seca que o desenvolvimento do capitalismo se defronta pela
primeira vez com o fenômeno. Os saques eram constantes, a polícia era convocada
para intervir nos tumultos. As ruas da cidade de repente ficaram cheias de
pedintes e doentes.
Rodolfo Teófilo, farmacêutico e escritor, publicou no livro A Fome o
relato de Fortaleza no final do século XIX, o prelúdio do desastre ainda maior
em 1915: “A peste e a fome matam mais de 400 por dia! O que lhes afirmo é que,
durante o tempo em que estive parado em uma esquina, vi passar 20 cadáveres: e
como seguem para a vala! (...) E as crianças que morrem, como são conduzidas!
Pela manhã, os encarregados de sepultá-las vão recolhendo-as em um grande saco;
e, ensacados os cadáveres, é atado aquele sudário de grossa estopa a um pau e
conduzido para a sepultura”.
O dia 10 de dezembro de 1878 ficou conhecido na história do Ceará como
“Dia dos Mil Mortos”, quando o antigo cemitério do Lazareto da Lagoa Funda, a
noroeste de Fortaleza, recebeu 1004 cadáveres. Tem também a seca de 1915 e a de
1932, sendo que cada uma tem sua marca ligada a um aspecto bem marcante, como
vejamos:
Segundo o diretor do Associação
do Patrimônio Público do Ceará - Apec, o historiador e professor Márcio Porto,
os três períodos foram escolhidos por se tratarem dos mais emblemáticos da
história do Estado. “A seca de 1877-79 foi das mais violentas da história -e
não atingiu só a população pobre, os grandes latifundiários perderam seus
rebanhos. Já a de 1915, ficou famosa por conta da Rachel de Queiroz. Na de 32,
temos documentos em que a Diretoria de Saúde Pública do Estado cita a criação
de ‘campos de concentração’ de flagelados da seca em Fortaleza”.
*A Seca de
1915 está entre as estiagens que mais marcaram o
sofrimento do sertanejo. As marcas dessa seca foram muito profundas em todo o
estado, permanecendo até hoje no imaginário popular. O que diferencia 1915 de
outras secas é que naquele ano o governo do Ceará encontrou uma “solução final”
e construiu um campo de concentração no Alagadiço, zona oeste de Fortaleza,
para conter os milhares de sertanejos que vinham de todas as regiões. Estima-se
que por lá passaram cerca de oito mil “mulambentos”, forma depreciativa como
eram chamados. A fuga desesperada desses sertanejos nos períodos de grande
estiagem era encontrar condições de vida melhor, com trabalho e dignidade,
migrando para os grandes centros.
Assim, a iniciativa do governo de construir os campos de concentração
foi louvada pela alta sociedade, horrorizada com os sertanejos maltrapilhos e
enfermos pela fome em praças e locais públicos da cidade. Na prática, os campos
de concentração foram tão dramáticos quanto a própria seca.
Este é o cenário de terror provocado não só pelo fenômeno climático da
seca, mas também pela ausência de políticas públicas efetivas e,
principalmente, o impacto das contradições sociais gerado entre a recém-formada
burguesia e uma imensidão de sertanejos pobres.
Além da tragédia da grande seca de 1915, como se não bastasse, dezessete
anos depois do desastre do Campo de Concentração do Alagadiço, em 1932, o
governo com apoio federal do Estado Novo “aprimorou” a experiência e desta vez
não só na capital, mas também em outras sete cidades do interior.
Em uma sociedade de classes injusta, períodos de grande estiagem atingem
diretamente o agricultor pobre que depende do próprio cultivo diário para
sobreviver. O Ceará possui 92% de seu território inserido no semiárido, sendo
uma área de vulnerabilidade.
Esse elemento aprofunda as questões sociais e econômicas, gerando cada
vez mais um fosso entre ricos e pobres. Esse quadro ficou cada vez mais
explícito quando o Estado entrou no modo de produção capitalista.
No inicio de 1915, Fortaleza recebeu assustadoramente um número quatro
vezes maior que a população existente, provocando epidemias, crimes,
assassinatos, suicídios, saques, loucuras e, segundo alguns historiadores, até
mesmo antropofagia por causa da fome.
Os sertanejos que não tinham mais local pra se instalarem, se amontoavam
nas ruas da cidade, ocupavam as calçadas e 3 mil pessoas se abrigavam no
Passeio Público, até então área nobre de sociabilidade da elite na Belle Epóque
fortalezense. Muitas vezes a força policial foi empregada para conter a
realidade que incomodava o ideal burguês.
A seca de 1915 acontece justamente em meio ao processo de inserção da
cidade na economia capitalista.
Assim, o então presidente (governador) do estado, Benjamin Liberato
Barroso, pressionado pela elite local, propôs construir um campo para
concentrar refugiados e necessitados em um único local dentro da capital, em
desesperada fuga, e “facilitar” o “socorro”.
O terreno era quase 500 metros quadrados no Alagadiço, onde hoje
compreende os bairros São Gerardo e Otávio Bonfim. As casas eram pequenas e
apinhadas uma as outras, construídas com placas de zinco.
Em pouco tempo, o número de sertanejos cresceu muito e o governo não
pode manter em boas condições de alimentação e higiene.
A situação se agravou quando chegaram as chuvas de setembro e outubro -
as chuvas do caju - somando todo o tipo de descaso, de tal forma que em
dezembro já apresentava incontáveis mortes.
Os cadáveres empilhavam-se à espera de transporte, ao longo da linha de
bonde que passava ao lado do campo.
A política de Estado de segregação dos sertanejos chegou em uma média de
150 mortes diárias. O governo então traçou uma nova estratégia contra a
situação que só piorava e passou a oferecer passagens para outros estados aos
sertanejos, primeiramente à região Amazônica, trabalhar nos seringais.
A propaganda inicialmente adotada pelo governo, igreja e jornais da
época estimulava a migração fazendo falso apelo ao orgulho pessoal dessas
pessoas, enquanto na verdade a elite se livraria do “estorvo”.
Quem “se entregava” e padecia do flagelo da seca nos campos de
concentração eram os flagelados;
quem “superava as dificuldades” e se retirava do estado para buscar melhores
condições de vida eram os retirantes.
Foi o início da saga de enormes contingentes de retirantes em todas as
regiões do Brasil no século XIX. O campo de concentração do Alagadiço foi
desativado em 18 de dezembro de 1915.
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