BRASIL: Cronicas
populares
Por:
professor Chagas
A saga do homem viveu para o voluntariado
O ano de 2001 foi
instituído pela ONU como o Ano Internacional do voluntariado. De lá para cá, em
consequência desse apelo sobre o tema, muitas empresas e cidadãos tem se
lançado no serviço voluntário da filantropia. Porém, essa manifestação sempre
existiu.
O
trabalho voluntário é tão antigo quanto as primeiras civilizações. Esta prática
remonta ao momento em as tribos coletivistas e igualitárias se expandiram e
deram origem a cidades e a sociedades desiguais e complexas.
Nas primeiras civilizações, as ações sociais
amparavam indivíduos carentes ou incapacitados. O código moral egípcio, por
exemplo, foi um dos primeiros a levantar a bandeira da Justiça Social. Suas
leis, que se misturavam ao discurso religioso, encorajavam as pessoas a
pequenas ações voluntárias. Na Grécia, viajantes eram acolhidos nas casas dos
ricos, recebendo abrigo e comida. Já na Roma pré-cristã, acreditava-se
que o imperador deveria suprir as necessidades dos súditos e mantê-los felizes.
O mesmo esperava-se dos cidadãos bem-nascidos, membros da aristocracia.
Na Idade Média o catolicismo praticamente
monopolizou o voluntariado, sempre com a concepção da caridade enquanto
redentora dos pecados. Com o enfraquecimento do poder católico, principalmente
a partir do século XVI, começaram iniciativas da sociedade civil e dos Estados
pelo combate à pobreza. Em 1526, Juan Luis Vives, pedagogo espanhol, convenceu
o governo de Bruxelas a criar uma repartição de assistência aos pobres,
iniciativa inédita que atraiu críticas da Igreja, que considerava essa missão
como sua. Em 1765, a cidade protestante de Hamburgo proibiu a mendicância. Para
auxiliar os indigentes, dividiu a cidade em regiões e criou uma repartição
central que seria responsável por abrigar, alimentar, dar treinamento
profissional e subsidiar os desempregados até que arrumassem alguma ocupação.
O
surgimento das sociedades urbano-industriais no século XIX fez crescer a
pobreza e o tema passou a ser estudado cientificamente, sem a interferência da
igreja, com busca de diagnósticos e tratamentos. Em 1869 surgiu na Inglaterra
o Charity Organization Society(COS), organização de trabalho voluntário que acreditava em um auxílio
mais amplo do que a simples caridade. Na primeira metade do século XX os
governos, principalmente na Europa, criaram Estados de Bem-Estar Social que
assumiram as funções assistenciais. Hospitais, escolas e instituições foram
criados para combater a pobreza das grandes cidades e amparar a população
carente.
Na década
de 1970, com a crise econômica mundial, observou-se tendência inversa. Governos
cortaram gastos, abrindo espaço para que o voluntariado voltasse a prover
necessidades básicas não supridas pelo Estado. Data desta época a popularização
das Organizações Não Governamentais (ONGs), instituições civis criadas na
década de 50. Ocupando espaços deixados por governos e empresas, as
organizações do terceiro setor não têm fins lucrativos e buscam potencializar o
impacto social a partir de trabalho voluntário e de doações. Em paralelo,
cresceu no mundo o conceito de Responsabilidade Social Empresarisal (RSE).
Pressionadas pela opinião pública, empresas tiveram que assumir
responsabilidades que iam além de seus investidores e consumidores diretos.
Muitas passaram a fazer doações sistemáticas e até financiaram fundações de
assistência, boa parte delas beneficiadas por incentivos fiscais do governo.
A história
que passamos a contar é o relato de um caso real acontecido no Estado do Piauí,
entre o final de 1800 e a primeira metade de 1900, nas terras de Vila de São
João da Parnaíba, hoje município de Parnaíba. É a história de um homem que
passou boa parte de sua vida fazendo voluntariado, rezando para curar doentes,
receitando remédios caseiros e pregando a palavra de Deus para salvar almas. Naquela
época essa região tinha o status de capitania, era ocupada por criadores de
gado que traziam seus rebanhos de outras capitanias para se fixarem em terras piauienses, em razão
da abundância de pasto de boa qualidade.
Na
esteira dessa ocupação vieram colonos de Pernambuco, da Bahia, bem como do Maranhão
e do Ceará, com o objetivo de desenvolver a atividade pecuária na região, e
nesse meio veio uma família onde o
marido era natural da Bahia e a esposa natural de Pernambuco. Adquiriram umas
terras no vale do rio Parnaíba e passaram a criar gado e extrair palha de
carnaúba para vender a cera que era um dos principais produtos. Naquela região a densidade demográfica era muito
baixa, não havia escola para as crianças nem assistência de saúde para a
população que se socorria de rezadeiras, curandeiras e parteiras. As estradas
eram muito, muito precárias e as viagens eram feitas pelos rios. A família teve
oito filhos, sendo quatro homens e quatro
mulheres que cresciam e ajudavam na lida da pequena propriedade. Entre os
filhos homens tinha um de nome Clariano, que desde a tenra idade demonstrou
vocação para viagens e trabalhos voluntários.
Muito
cedo os pais o puseram para aprender as primeiras letras na Vila de São João da
Parnaíba, distando aproximadamente 20 léguas, cujo trajeto era feito em “barcos
a vela e a vara” pelas águas do rio Parnaíba. Na escola esse jovem demonstrou grande
inteligência tendo sido distinguido como bom aluno. Ao retornar para casa,
resolveu ir visitar os parentes da sua mãe nas terras de Pernambuco. Empreendeu
sua primeira viagem de aproximadamente 50 léguas. Alí nas terras da Vila de
Olinda foi recebido pela parentada de sua genitora com muita alegria e
contentamento, pois era portador de boas notícias dos progressos que seus pais
estavam fazendo para as bandas das terras da Capitania de São José
do Piauí, na pecuária.
Por outro lado, contava
pontos a seu favor, a sua boa aparência, pois saíra com os traços e as
parecenças da sua mãe, branca de olhos azuis, de estatura considerada alta, em
contraponto aos padrões baianos de seu pai, onde os homens mediam de 1.55 a 1.60cm
de altura. A sua genitora era uma mulher meiga, de pele aveludada, rosto
afilado, nariz aquilino, cabelo louro ondulado, com cintura fina e ancas
largas, com altura de aproximadamente 1.80, enquanto seu pai era do tipo cafuzo
(mistura de negro e índio), estatura baixa, olhos amendoados escuros, cabelos
encaracolados, medindo aproximadamente 1.60 de altura, porém, com personalidade
marcante.
Com estas vantagens a
seu favor, o jovem Clariano logo se enamorou de uma prima de nome Izabelinda,
tendo recebido total aprovação de seus tios, os pais da moça. Correu o tempo
para o providencial conhecimento dos noivos e por fim o casamento. Entre o
namoro, o noivado e o casamento, transcorreram 12 meses, durante os quais o
jovem galã foi hospedado e sustentado com muito gosto pela família da noiva,
que por outro lado, via com bons olhos o fato de estar casando uma de suas
filhas com um rapaz que tinha origem e seus pais tinham posses. Àquela época, o
referencial de riqueza e fausto estava associado à posse de terras e gado, e a
Capitania do Piauí despontava como um celeiro de grandes fazendas e ricos
fazendeiros.
Assim, o jovem Clariano,
era visto como um excelente partido para a jovem Izabelinda, cuja família não
dispunha de vultuosas posses. Por outro lado, o jovem Clariano dominava a arte
da boa conversa e do convencimento. Sabia ler, fazer contas de somar e
subtrair, lia romances de cordel com maestria e interpretava como um bom ator
de teatro. A família da noiva foi facilmente convencida pelo astuto jovem a
realizar o casamento dos dois pombinhos apaixonados. Com muito crédito perante
a prelazia local, não foi difícil abreviar o prazo de “correr os banhos” para o
casamento religioso.
Após dois meses de casado
e quatro meses de viagem, Clariano resolveu retornar para seu lar, em viagem
que lhe consumiu mais 30 dias. Ao chegar, com toda a pompa e circunstância,
informou aos seus pais que se casara com a sua prima Izabelinda. O pai logo
cuidou de mandar construir uma boa casa para o casal em uma de suas
propriedades, mobiliou, comprou todo o enxoval e o acompanhou a Pernambuco para
ir buscar a noiva e selar de vez a aliança entre as duas famílias.
Retornaram os
recém-casados, fizeram uma animada festa para a família e toda a sociedade das
fazendas vizinhas. O jovem Clariano, no entanto logo programou nova viagem
desta vez para visitar a sua avó materna que residia em terras da Via de Senhor
do Bonfim, na Bahia. Nessa visita a sua avó Clariano ficou 6 meses e gastou
mais dois meses na viagem, totalizando oito meses. Com sua avó Clariano
aprendeu as artes da reza e da fabricação de meizinhas para amenizar os efeitos
da diarreia, febre de mal olhado, espinhela caída, diflucio, sezão, impaludismo,
barriga d’água, sapiranga,(doença dos olhos) etc, principalmente em crianças e
mulheres grávidas. Ainda na sua estada na casa da avó Clariano aprendeu a arte
do artesanato de palha de carnaúba, na fabricação de cestos, abanos, côfos e
paneiros.
Seis meses depois Clariano
estava de volta, com muitas novidades e aí lembrou-se que o seu sogro
presenteara a ele e Izabelinda com um belo potro que pelo tempo já tinha se
tornado um bonito cavalo. Por outro lado, a esposa Izabelinda a essa altura se
encontrava grávida do primeiro filho do casal. Clariano imediatamente levantou
âncora em direção a Olinda para ir buscar o presente do casal. Nessa viagem se foram
mais seis meses entre ida e volta, de modo que quando o mesmo retornou o seu
primeiro filho já tinha nascido e estava com 3 meses de idade.
Como o jovem Clariano
não era mesmo afeito à lida do campo e já contava com duas qualificações que
eram o oficio das rezas e a elaboração e receitação de meizinhas, bem como a
confecção de cestos e abanos, e mais a leitura de histórias de valentias dos
romances de cordel, botou o pé na estrada prestando assistência às famílias da
região que tivessem algum ente adoentado, levando os cestos e os paneiros para presentear
as famílias, levando também raízes, cascas de árvores e folhas para fazer
infusões de meizinhas, chás, banhos, lambedores e outros remédios, bem como os
romances de cordel para ler e divertir as famílias enquanto aguardavam a
melhora dos parentes. A cada viagem que fazia, mais famílias eram atendidas e
confortadas. Clariano tinha uma boa conversa e sabia motivar as pessoas. Estava
sempre atualizado com as últimas notícias do estado e do país e era bom
contador de causos. Rezava em crianças e adultos, apadrinhava batizados e
casamentos e confortava famílias em velórios.
Desta forma, ia tratando
da saúde física e psicológica de crianças e adultos, velhos e mulheres, tanto
no estado do Piauí como nos estados vizinhos. Não cobrava nada e fazia este
serviço com o maior prazer, fazendo amizades e distribuindo solidariedade por
onde passava. Era um verdadeiro agente de voluntariado sem fronteira. E assim
por toda a sua vida priorizou o atendimento às pessoas com assistência à saúde
e promoção do divertimento através da leitura que só ele dominava, negliciando
até mesmo a assistência a sua própria família. Um exemplo disso foi quando para
o nascimento de sua quarta filha, ele foi buscar a parteira e quando voltou a
criança já tinha seis meses de idade.
Outra vez, saiu de casa
em abril com destino a cidade de Canindé no Ceará, para pagar uma promessa a
São Francisco, mas antes fez escalas em Crateús, Camocim, Sobral, chegando ao
seu destino em outubro. Após pagar a promessa seguiu viagem para Fortaleza,
onde embarcou em uma aeronave da FAB e foi atender pessoas em São Luís do
Maranhão. Nesta viagem saiu de casa em Abril e retornou em dezembro.
No fim da vida, já
esgotado, Clariano tentou fazer uma viagem nos arredores da sua morada, mas
morreu à margem do rio Parnaíba, provavelmente tentando embarcar em uma
embarcação a vapor como o fizera tantas vezes. Os comandantes de barcos
contavam por muito tempo, que ao passarem a noite naquele lugar, de longe
avistavam um velho de branco, acenando com um lenço na barranca do rio como que
pedindo carona.
Um barco
inadvertidamente se aproximou, o piloto ficou incandiado com uma luz muito forte
e acabou batendo na barranca do rio, espatifando-se e naufragando. Esse
acidente ficou conhecido como o último milagre do velho Clariano, pois nenhum
dos passageiros se afogou. O povo da região garante que ele prestou assistência
a todos os passageiros, mais uma vez, como fizera por toda a sua vida.
Contextualização histórico-geográfica-linguística:
O Piaui de ontem
O Território do Piauí foi povoado por muitas tribos indígenas antes da chegada
dos portugueses ao Brasil, dentre elas, destacam-se os tremembés, que viviam próximos ao
litoral e ao Rio Parnaíba. A exploração do Piauí aconteceu devido a presença de bandeirantes, que tornaram-se
proprietários de amplas glebas de terras. Em 1718 o Piauí foi elevado a
categoria de Capitania denominada São
José do Piauí, integrada à Capitania do
maranhão da qual foi desmembrada em 1758, quando tornou-se uma capitania
independente em 1758, sendo a sua primeira capital a vila de Oeiras.
Em
1772, a Capitania do Grão-Pará e Maranhão foi desmembrada em duas: a Capitania do
Grão-Pará e Rio Negro, com capital em Belém, e a Capitania do Maranhão e Piauí,
com capital em São Luís. Em 10 de outubro 1811, a Capitania do Piauí foi
separada da administração do Maranhão. Antes da fundação da Capitania, as
terras do Piauí estavam subordinadas administrativamente a Pernambuco.
O
Piaui de hoje
O Estado do Piauí
tem uma área total de 251.529,186 km; uma população de
3.219.257 habitantes; com uma densidade demográfica de 12,79 habitante por km;
224 municípios, sendo os principais: Parnaíba, Picos, Oeiras e a capital
Teresina. Produto Interno Bruto (PIB): R$
39,148 bilhões (ano de 2015); Renda
Per Capita: R$ 12.218 (ano de 2015); Índice de Desenvolvimento Humano (IDH): 0,646
- médio (2010);
Principais Atividades Econômicas: agricultura, pecuária, extrativismo (vegetal e mineral) e serviços;
Principais Atividades Econômicas: agricultura, pecuária, extrativismo (vegetal e mineral) e serviços;
Mortalidade Infantil (antes de completar 1 ano): 20,7
por mil (em 2014); alfabetismo: 21%
(em 2014); Expectativa de vida (anos): 71,1
(em 2016).
Parnaíba é um município brasileiro do estado do Piauí, possuindo uma população de 150 780
(IBGE/2010), sendo o segundo mais populoso do estado, perdendo apenas para a
capital Teresina. É um dos quatro municípios litorâneos do Piauí (além de Ilha Grande, Luís Correia e Cajueiro da Praia). Além das belezas naturais, Parnaíba apresenta um grande
valor histórico para o Piauí, apresentando principalmente nas proximidades do
Porto das Barcas inúmeros imóveis históricos que traduzem a importância de
Parnaíba, chegando naquela época a ser mais importante do que a ex-capital
Oeiras e sendo uma boa referência à Europa. Desde 2012, Parnaíba vem crescendo
em ritmo acelerado, tendo no início de 2014, inaugurado o seu primeiro shopping
Center(Parnaíba Shopping) e retomando os voos em seu aeroporto internacional.
Parnaíba é o nome de um rio na bacia do Nordeste com cerca de 1,8 mil Km.
de extensão. Nasce na divisa dos estados do Piauí e do Tocantins, na chapada
das Mangabeiras a 700 metros de altitude, com o nome de riacho da Água Quente.
A partir da confluência com o rio Uruçuí Vermelho, passa e ser chamado de Parnaíba.
-O rio Parnaíba deságua
no oceano Atlântico formando o único delta em mar aberto das Américas, com 5
bocas e cerca de 75 ilhotas. A palavra Parnaíba
significa Facão usado por açougueiros na Bahia; ou trecho de rio onde não se pode navegar; significado da
palavra Piauí = gado bovino de pequeno tamanho e dotado de
cornos grandes;
Regionalismos:
* A
expressão “correr-banhos”, neste contexto,
significava «proclamação feita por um sacerdote informando de que um casal de
noivos desejava consorciar-se». Nessa oportunidade, o sacerdote perguntava aos
presentes se conheciam algum impedimento civil ou religioso que não permitisse aquele
matrimonio. Esta proclamação devia ser feita três vezes em domingos ou dias
santificados nas missas de maior afluência. Além desta proclamação oral, era
afixado um aviso à porta da igreja com a mesma finalidade. ** - Meizinhas
– medicação popular geralmente confeccionada com folhas, ramos, e raízes, para
curar males diversos. *** - Cofo. Tipo de cesto alongado, feito com palha de
palmeiras, com ou sem alça, usado para transportar ou acondicionar produtos e
objetos. Muito usado na zona rural das regiões norte e nordeste. **** - Paneiro - é um objeto confeccionado
com palha da região norte e nordeste, que tem vários usos: guardar,
transportar, enfeitar. Seu acondicionamento é fácil, pois podem ser colocados
um dentro do outro e não ocupa muito espaço. Não pesa e pode ser levado
para vários lugares. Possui vários tamanhos. - ***** - Abano - Objeto em forma de leque,
confeccionado em palha, que se usa para atiçar o fogo; ventarola.
Fonte: IBGE - estimativa de julho de
2017 - Governo
do estado do Piauí.
Fonte: Faraós, igrejas, governos e ONGs: a história do
trabalho voluntário - por marcoslcpinheiro
Nenhum comentário:
Postar um comentário