sexta-feira, 28 de setembro de 2018

A TRAIÇÃO DOS ÍNDIOS MIGUELENOS


Rondônia: choque de culturas

A TRAIÇÃO DOS ÍNDIOS MIGUELENOS

A crônica popular sobre os indígenas da região amazônica, apresentava-os como sendo temidos comedores de carne humana, e difundia-se histórias de viajantes que foram atacados e mortos pelos “tapuias”. Na verdade a selva amazônica era densamente povoada por esses habitantes com suas manias e características próprias. Alguns mais amigáveis e outros menos dados a amizades. Alguns devoravam os seus inimigos em batalhas travadas pelo domínio de territórios na própria floresta.

Com a introdução da exploração da borracha, essas tribos apareceram com mais frequência e os relatos mais conhecidos, pois as vítimas passaram a ser tambem os homens brancos.

Um relatório do engenheiro Manoel Espiridião da Costa Marques, de 1906, intitulado Viagem e Estudos sobre o Valle do Baixo Guaporé – Da cidade de Matto Grosso ao Forte Príncipe da Beira, registra a aproximação dos seringalistas com os índios do Guaporé, em especial, os Cabixis, os Pão-Cerne, os Garayoz, os Palmellas e os Miguelenses. Dessas aproximações resultaram amizades, colaborações, transferência de culturas e alguns conflitos.

O relato mais notável é o conflito entre indígenas Waniam/Miqueleno e os proprietários da casa Maciel & C. O povo Waniam foi designado genericamente de Miqueleno por habitar tradicionalmente o rio São Miguel, onde existiam numerosos aldeamentos, o que levou viajantes, seringalistas e exploradores a denominá-los de miguelenses ou miguelenhos.

Segundo Costa Marques, em 1882 Estevam Antunes Maciel, irmão de Balbino Maciel, um dos sócios da Maciel & Companhia, realizou uma viagem ao rio São Miguel. Subindo o rio logo acima de sua barra, foi estevam encontrando numerosos aldeiamentos, e aos índios foi distribuindo generosamente os presentes que levava e que mais lhe apeteciam. Os selvagens fizeram-lhe festiva recepçãp e parecia que também a paz estava feita.

Regressou então Estevam muito satisfeito porque também havia descoberto ricos seringais. E no principio de setembro, empreendeu nova viagem ao rio São Miguel acompanhado de muitos trabalhadores já preparados para trabalharem na extração da goma elástica. Alegre e festivo foi o acolhimento que os índios lhe deram. E entretanto, a trama estava urdida. A perfídia e a covardia é que os dominavam. Aquela alegria era o requinte da falsidade perversa. Inventaram uma festa e, reunidos todos em uma das aldeias, foram convidar Maciel e seus companheiros para o folguedo. Era o dia 8 de setembro de 1882.

Chegados os hospedes e lhes tendo inspirado confiança, ofereceram-lhes bebidas e os desarmaram amavelmente e, quando menos esperavam, romperam em gritaria infernal, caíram canibalmente sobre os seus hóspedes com as armas que traziam ocultas e foi então medonha a carnificina, conseguindo escapar dessa hecatombe somente um dos companheiros de Maciel, que tinha ficado de guarda na canoa e que, embrenhando-se pelas matas, três dias depois, morto de fome, chegou à barra de S. Miguel, dando a fatal notícia a uma parte do pessoal ali deixado.

Somente 15 anos depois destes tristes acontecimentos, , em 1877, veio a Casa Maciel a travar relações com esses gentios, com os quais vai vivendo em paz até hoje. Ao Barracão de Balbino Maciel, à barra do S. Miguel, já tem vindo turma de cem índios. Até hoje, porém, nada fazem e só ali aparecem a procura de presentes e, obtidos estes, regressam às suas aldeias. São muito egoístas. Tudo querem e pedem, mas nada trazem de suas tabas. Só a custo, deles se consegue um arco ou uma flecha. Alguns deles já fazem plantações de milho, empregando ferramentas que lhes tem fornecido a Casa Maciel.

Contam os miguelenhos que do centro descem índios para guerreá-los e que mais de um dos seus chefes tem sucumbido na peleja, sendo um dos últimos o capitão Joaquim, que em uma das refregas foi aprisionado e, saindo os seus companheiros à sua procura no dia seguinte, encontraram os inimigos saciando os seus instintos ferozes com a carne do capitão migueleno.


Notas:

Rio Guaporé
rio Guaporé, conhecido na Bolívia como rio Iténez é um curso de água da bacia do rio Amazonas, no Brasil e na Bolívia. Banha os estados de Mato Grosso e de Rondônia e os departamentos bolivianos de Santa Cruz e Beni, servindo de divisa entre os dois países.
O rio Guaporé nasce do encontro do rio Molequerio Sepultura e do rio Lagoazinha na chapada dos Parecis – MT, a 630 metros de altitude. Tem a sua foz no Rio Mamoré, quando esse ingressa em território brasileiro. Sua extensão é de 1716 km, sendo que 1150 km são navegáveis a partir de Vila Bela da Santíssima Trindade (em todo seu percurso no estado de Rondônia, e uma pequena parte de Mato Grosso, onde corre no sentido leste-oeste), nesse trecho navegável faz fronteira entre o Brasil (margem norte) e a Bolívia (margem sul).
na margem sul: os rios bolivianos: ParagaúColoradoSão JoséSão SimãoBauresItonamasBlancoMachupoAlegreCapivari e Verde.

2 – Indios Wanian, Miguelenses ou Puruborá

Outras designações: Kuyubi, Puruborá, Poumbora, ou Miguelenho

Os índios Waniam, também conhecidos como Miquelenses ou  Puruborá,  são um povo indígena que vive no Brasil, no estado de Rondônia, no vale do rio São Miguel, contando uma população total de 242 pessoas.
Significado: Puruborá significa 'povo da onça' ou 'aquele que se transforma em onça para curar.
Localização: Rondônia, vivem em diversos lugares. O seu território fica  entre os rios Caio Espíndola a oeste e rio Cabixi a leste, a rodovia BR-429 ao sul e a Terra Indigena Uru-Eu-Wau-Wau ao norte.
História: Os Purubolá eram considerados isolados por Darcy Ribeiro em 1900. O território original do povo era na atual Terra Indigena Rio Branco, no município de Alta Floresta, habitada pelos Tupari, Arikapú, Jaboti ou Djeeoromitxi e Makurap, mas migraram para o vale do rio Miguel. Eles foram contatados em 1909 pelo Coronel Rondon, durante a construção da Linha Telegráfica ligando Mato Grosso a Guajará Mirim, na região dos rios São Miguel e dos seus afluentes rio Manuel Correia onde foi instalado o posto Três de Maio. Os Puruborá foram para o local onde mantiveram o contato com Rondon no Posto Indígena Três de Maio. Marechal Rondon delimitou uma área de cerca de 67.600 ha para uso dos índios do rio São Miguel.
Ali serviam de mão de obra para os vários seringalistas, e foram pagos com ferramentas, roupas, café, etc. Durante a Segunda Guerra Mundial os seringueiros do nordeste foram incentivados a superam sua cota anual em toneladas de extração do látex e foram pagos por 'casamentos' com índias órfãs, criadas pelos seringalistas e funcionários do Serviço de Proteção do Indio. O funcionário do SPI do Posto Três de Maio foi substituído e este episodio acelerou a desagregação dos Puruborá. Houve três expulsões dos Puruborá, antes de 1940, e em 1982, pelo IBAMA com a delimitação da Reserva Biológica do Guaporé


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