Rondônia:
choque de culturas
A
TRAIÇÃO DOS ÍNDIOS MIGUELENOS
A
crônica popular sobre os indígenas da região amazônica, apresentava-os como
sendo temidos comedores de carne humana, e difundia-se histórias de viajantes
que foram atacados e mortos pelos “tapuias”. Na verdade a selva amazônica era
densamente povoada por esses habitantes com suas manias e características
próprias. Alguns mais amigáveis e outros menos dados a amizades. Alguns
devoravam os seus inimigos em batalhas travadas pelo domínio de territórios na
própria floresta.
Com
a introdução da exploração da borracha, essas tribos apareceram com mais
frequência e os relatos mais conhecidos, pois as vítimas passaram a ser tambem
os homens brancos.
Um
relatório do engenheiro Manoel Espiridião da Costa Marques, de 1906, intitulado
Viagem e Estudos sobre o Valle do Baixo Guaporé – Da cidade de Matto Grosso ao
Forte Príncipe da Beira, registra a aproximação dos seringalistas com os índios
do Guaporé, em especial, os Cabixis, os Pão-Cerne, os Garayoz, os Palmellas e
os Miguelenses. Dessas aproximações resultaram amizades, colaborações,
transferência de culturas e alguns conflitos.
O
relato mais notável é o conflito entre indígenas Waniam/Miqueleno e os proprietários
da casa Maciel & C. O povo Waniam foi designado genericamente de Miqueleno
por habitar tradicionalmente o rio São Miguel, onde existiam numerosos
aldeamentos, o que levou viajantes, seringalistas e exploradores a denominá-los
de miguelenses ou miguelenhos.
Segundo
Costa Marques, em 1882 Estevam Antunes Maciel, irmão de Balbino Maciel, um dos
sócios da Maciel & Companhia, realizou uma viagem ao rio São Miguel. Subindo
o rio logo acima de sua barra, foi estevam encontrando numerosos aldeiamentos,
e aos índios foi distribuindo generosamente os presentes que levava e que mais
lhe apeteciam. Os selvagens fizeram-lhe festiva recepçãp e parecia que também a
paz estava feita.
Regressou
então Estevam muito satisfeito porque também havia descoberto ricos seringais.
E no principio de setembro, empreendeu nova viagem ao rio São Miguel acompanhado
de muitos trabalhadores já preparados para trabalharem na extração da goma
elástica. Alegre e festivo foi o acolhimento que os índios lhe deram. E
entretanto, a trama estava urdida. A perfídia e a covardia é que os dominavam. Aquela
alegria era o requinte da falsidade perversa. Inventaram uma festa e, reunidos
todos em uma das aldeias, foram convidar Maciel e seus companheiros para o
folguedo. Era o dia 8 de setembro de 1882.
Chegados
os hospedes e lhes tendo inspirado confiança, ofereceram-lhes bebidas e os
desarmaram amavelmente e, quando menos esperavam, romperam em gritaria
infernal, caíram canibalmente sobre os seus hóspedes com as armas que traziam
ocultas e foi então medonha a carnificina, conseguindo escapar dessa hecatombe
somente um dos companheiros de Maciel, que tinha ficado de guarda na canoa e
que, embrenhando-se pelas matas, três dias depois, morto de fome, chegou à
barra de S. Miguel, dando a fatal notícia a uma parte do pessoal ali deixado.
Somente
15 anos depois destes tristes acontecimentos, , em 1877, veio a Casa Maciel a
travar relações com esses gentios, com os quais vai vivendo em paz até hoje. Ao
Barracão de Balbino Maciel, à barra do S. Miguel, já tem vindo turma de cem
índios. Até hoje, porém, nada fazem e só ali aparecem a procura de presentes e,
obtidos estes, regressam às suas aldeias. São muito egoístas. Tudo querem e
pedem, mas nada trazem de suas tabas. Só a custo, deles se consegue um arco ou
uma flecha. Alguns deles já fazem plantações de milho, empregando ferramentas
que lhes tem fornecido a Casa Maciel.
Contam
os miguelenhos que do centro descem índios para guerreá-los e que mais de um
dos seus chefes tem sucumbido na peleja, sendo um dos últimos o capitão
Joaquim, que em uma das refregas foi aprisionado e, saindo os seus companheiros
à sua procura no dia seguinte, encontraram os inimigos saciando os seus
instintos ferozes com a carne do capitão migueleno.
Notas:
Rio Guaporé
O rio Guaporé, conhecido na Bolívia como rio Iténez é um curso de água da bacia do rio
Amazonas, no Brasil e na Bolívia. Banha os estados de Mato Grosso e de Rondônia e os departamentos bolivianos de Santa
Cruz e Beni,
servindo de divisa entre os dois países.
O rio Guaporé nasce do encontro do rio Moleque, rio
Sepultura e do rio Lagoazinha na chapada dos Parecis – MT, a 630 metros de altitude. Tem a sua
foz no Rio Mamoré, quando esse ingressa em território brasileiro. Sua extensão é de
1716 km, sendo que 1150 km são navegáveis a partir de Vila Bela da
Santíssima Trindade (em todo seu percurso no estado de Rondônia, e uma pequena parte de Mato Grosso, onde corre no sentido leste-oeste), nesse trecho navegável faz
fronteira entre o Brasil (margem norte) e a Bolívia (margem sul).
Seus principais afluentes são: na margem norte: rios Sararé, Galera, Piolho, Piolhinho, Trinta
e Dois, Vermelho, Sabão, Quariteré, São
João, Cabixi, Escondido, Azul, Pau
Cerne, Corumbiara, Verde, Mequens, Colorado, São
Simão, Branco, São
Miguel, Cautarinho, Paraguaçu, São
Domingos, Ouro
Fino e Cautário.
na margem sul: os rios
bolivianos: Paragaú, Colorado, São
José, São
Simão, Baures, Itonamas, Blanco, Machupo, Alegre, Capivari e Verde.
2 – Indios Wanian, Miguelenses ou Puruborá
Outras designações: Kuyubi, Puruborá, Poumbora, ou Miguelenho
Os índios Waniam, também conhecidos como Miquelenses ou Puruborá, são um povo indígena que vive no Brasil, no estado de Rondônia, no vale do rio
São Miguel, contando uma população total de 242
pessoas.
Significado: Puruborá significa
'povo da onça' ou 'aquele que se transforma em onça para curar.
Localização: Rondônia, vivem em diversos lugares. O seu território fica entre os rios Caio Espíndola a oeste e rio
Cabixi a leste, a rodovia BR-429 ao sul e a Terra Indigena Uru-Eu-Wau-Wau ao
norte.
História: Os Purubolá eram considerados isolados por Darcy
Ribeiro em 1900. O território original do povo era na atual Terra Indigena Rio
Branco, no município de Alta Floresta, habitada pelos Tupari, Arikapú, Jaboti
ou Djeeoromitxi e Makurap, mas migraram para o vale do rio Miguel. Eles foram
contatados em 1909 pelo Coronel Rondon, durante a construção da Linha
Telegráfica ligando Mato Grosso a Guajará Mirim, na região dos rios São Miguel
e dos seus afluentes rio Manuel Correia onde foi instalado o posto Três de
Maio. Os Puruborá foram para o local onde mantiveram o contato com Rondon no
Posto Indígena Três de Maio. Marechal Rondon delimitou uma área de cerca de
67.600 ha para uso dos índios do rio São Miguel.
Ali serviam de mão de obra para os vários seringalistas, e foram pagos com
ferramentas, roupas, café, etc. Durante a Segunda Guerra Mundial os
seringueiros do nordeste foram incentivados a superam sua cota anual em
toneladas de extração do látex e foram pagos por 'casamentos' com índias órfãs,
criadas pelos seringalistas e funcionários do Serviço de Proteção do Indio. O
funcionário do SPI do Posto Três de Maio foi substituído e este episodio
acelerou a desagregação dos Puruborá. Houve três expulsões dos Puruborá, antes
de 1940, e em 1982, pelo IBAMA com a delimitação da Reserva Biológica do
Guaporé
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