ELEIÇÕES NO
BRASIL: Crônicas e Causos
VOTOS QUE O RIO LEVOU
As eleições brasileiras são ricas em histórias
de esperteza, tanto de candidatos como de eleitores. Os dois lados costumam
travar uma luta para ver quem leva mais vantagem com quem. Os eleitores vêem
nos candidatos pessoas com muito dinheiro e que dariam qualquer coisa ou valor
para obter as suas preferências na hora de escolher um candidato para votar. Os
candidatos por sua vez, vêem nos eleitores, presas fáceis de serem conquistadas
com alguma vantagem. Desse modo, os dois lados partem para a negociação em
torno de uma mesma mercadoria por assim dizer, que é o voto. Esse voto que é um
pressuposto da cidadania pessoal de cada um de nós e que não tem como
aquilatar-se valor pecuniário a ele, posto que é de decisão unilateral,
indivisível, intrasnferível e eterno. O que se pratica com o ato de votar é a
outorga de uma procuração que pode ser revogada a qualquer tempo. Não se vende
uma licença, não se comercializa uma propriedade, e mais, essa outorga visa o
ato da representação e não o ato da apropriação.
Uma
das histórias bem conhecidas na região Amazônia é essa que dizem que aconteceu
em uma eleição dos anos 60 em um seringal à margem de um rio no estado do Acre. Um
candidato a deputado federal acercou-se de uma comunidade e ali negociou os
votos daquela comunidade oferecendo a todos os moradores, apetrechos de pesca,
relógios, dentaduras, óculos e tecidos para as mulheres fazerem seus vestidos
para irem votar. Tudo acertado, o dito candidato ofereceu transporte para os
eleitores irem votar.
Chegou o dia da eleição, os eleitores votaram no dito
candidato só que na hora de pagar o transporte de retorno dos eleitores para os
seus seringais, o candidato se negou argumentando que já tinha tido muitas
despesas com os eleitores.
Mandou que todos se virassem para retornar a suas casas e
pegou a urna onde se encontravam os seus votos colocou debaixo do braço. Embarcou
num pequeno barco e rumou para a cidade onde seriam apurados os votos.
Os eleitores por sua vez, ficaram muito decepcionados e tiveram
reações as mais adversas. Uns choraram, uns esbravejaram, outros xingaram, mais
uma velhinha muito sábia juntou a todos na margem do rio e fez a seguinte
reflexão:
"Pensem meus irmãos, tanto ele
quanto nós erramos e merecemos um castigo. Nós erramos primeiro por termos
vendido nossos votos. Quando estávamos vendendo nosso voto, estávamos vendendo
era a nossa consciência, e nos alegrávamos achando que estávamos levando
vantagem sobre este pobre homem. Ele, por sua vez, quando estava comprando
nosso voto que é o mesmo que nossa dignidade, se jactava achando que estava nos
enganando.
Portanto, meus amigos,
retornemos para nossas casas, pois nós já recebemos nosso castigo que é a nossa
recompensa e este pobre homem certamente vai receber o seu castigo, que também
será lição de justiça.
E assim aqueles eleitores
retornaram para os seus seringais e aprenderam a lição de que não é correto
vender voto, ou trocar por coisa alguma. Quanto ao candidato, logo que saiu do
porto enfrentou um temporal que virou o seu barco e perdeu-se a urna com todos
os votos."
Essa história ficou como ensinamento de que a injustiça é
pior do que a má fé e que quando vendemos a nossa dignidade nos tornamos
escravos...
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