quinta-feira, 27 de setembro de 2018

VOTOS QUE O RIO LEVOU


ELEIÇÕES NO BRASIL: Crônicas e Causos


VOTOS QUE O RIO LEVOU


As eleições brasileiras são ricas em histórias de esperteza, tanto de candidatos como de eleitores. Os dois lados costumam travar uma luta para ver quem leva mais vantagem com quem. Os eleitores vêem nos candidatos pessoas com muito dinheiro e que dariam qualquer coisa ou valor para obter as suas preferências na hora de escolher um candidato para votar. Os candidatos por sua vez, vêem nos eleitores, presas fáceis de serem conquistadas com alguma vantagem. Desse modo, os dois lados partem para a negociação em torno de uma mesma mercadoria por assim dizer, que é o voto. Esse voto que é um pressuposto da cidadania pessoal de cada um de nós e que não tem como aquilatar-se valor pecuniário a ele, posto que é de decisão unilateral, indivisível, intrasnferível e eterno. O que se pratica com o ato de votar é a outorga de uma procuração que pode ser revogada a qualquer tempo. Não se vende uma licença, não se comercializa uma propriedade, e mais, essa outorga visa o ato da representação e não o ato da apropriação.

Uma das histórias bem conhecidas na região Amazônia é essa que dizem que aconteceu em uma eleição dos anos 60 em um seringal  à margem de um rio no estado do Acre. Um candidato a deputado federal acercou-se de uma comunidade e ali negociou os votos daquela comunidade oferecendo a todos os moradores, apetrechos de pesca, relógios, dentaduras, óculos e tecidos para as mulheres fazerem seus vestidos para irem votar. Tudo acertado, o dito candidato ofereceu transporte para os eleitores irem votar.

Chegou o dia da eleição, os eleitores votaram no dito candidato só que na hora de pagar o transporte de retorno dos eleitores para os seus seringais, o candidato se negou argumentando que já tinha tido muitas despesas com os eleitores.
Mandou que todos se virassem para retornar a suas casas e pegou a urna onde se encontravam os seus votos colocou debaixo do braço. Embarcou num pequeno barco e rumou para a cidade onde seriam apurados os votos.
Os eleitores por sua vez, ficaram muito decepcionados e tiveram reações as mais adversas. Uns choraram, uns esbravejaram, outros xingaram, mais uma velhinha muito sábia juntou a todos na margem do rio e fez a seguinte 
reflexão:
"Pensem meus irmãos, tanto ele quanto nós erramos e merecemos um castigo. Nós erramos primeiro por termos vendido nossos votos. Quando estávamos vendendo nosso voto, estávamos vendendo era a nossa consciência, e nos alegrávamos achando que estávamos levando vantagem sobre este pobre homem. Ele, por sua vez, quando estava comprando nosso voto que é o mesmo que nossa dignidade, se jactava achando que estava nos enganando.
Portanto, meus amigos, retornemos para nossas casas, pois nós já recebemos nosso castigo que é a nossa recompensa e este pobre homem certamente vai receber o seu castigo, que também será lição de justiça.
E assim aqueles eleitores retornaram para os seus seringais e aprenderam a lição de que não é correto vender voto, ou trocar por coisa alguma. Quanto ao candidato, logo que saiu do porto enfrentou um temporal que virou o seu barco e perdeu-se a urna com todos os votos."
Essa história ficou como ensinamento de que a injustiça é pior do que a má fé e que quando vendemos a nossa dignidade nos tornamos escravos...

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