Amazônia: Ciclo da Borracha
Lutas,
sonhos e dramas humanos
Por: Professor Chagas
O desengano de um Arigó
Durante a Segunda
Guerra Mundial a utilização de borracha em material bélico era essencial, e com
a utilização em automóveis e demais aparelhos o consumo era muito alto. Nessa
época os americanos tinham um estoque razoável, mas o avanço japonês na Ásia
onde os ingleses tinham grandes concentrações de extração de borracha, causou
um colapso mundial. Isso obrigou os planejadores militares a buscar alternativas
para o fornecimento de borracha para suprir as necessidades dos aliados.
A principal saída
foi a busca do material na América Latina, ou seja, na Amazônia. Foi nessa hora
que entraram na história milhares de nordestinos que, acossados pela seca foram
atraídos para a retirada de borracha para o governo atender aos americanos e
também viram na promessa do governo uma possibilidade de riqueza.
Essa história é real e retrata
o dilema que viveram os “ Soldados da Borracha”, jovens que foram recrutados no
Nordeste para virem trabalhar para o governo federal na Amazônia extraindo
leite de seringueira para o aquele governo cumprir compromissos com os Estados
Unidos por ocasião da guerra mundial.
Todos eles tinham uma coisa em
comum: a vontade de retornar à terra natal para rever os parentes que deixaram lá.
A grande maioria não
conseguiu. Uns porque morreram ainda jovens de doenças tropicais ou mortos por
animais silvestres, afogados, flechados por índios e outros porque nunca
conseguiram juntar o dinheiro necessário para custear a viagem e,
principalmente porque os patrões só liberavam se o camarada tirasse saldo. Ocorre
que no regime de trabalho ao qual eles estavam submetidos, era quase impossível
sobrar saldo no final do ano. O seringueiro se aviava no armazém do patrão que
cobrava o preço que bem queria. Já na hora de entregar a borracha, o patrão pagava
o que bem queria e normalmente enganava o trabalhador.
Dessa forma, o Arigó sempre
ficava devendo ao patrão. E devendo ao patrão tinha que trabalhar mais para
tentar zerar o débito. Mas aí o Arigó se afundava em mais dívidas. E os anos
iam passando e a dívida do Arigó só aumentava. Alguns, porém, tiveram a sorte
de trabalhar com patrões mais humanos e puderam até juntar um dinheirinho.
Foi o caso do Arigó Zé
Geraldo, que trabalhou em seringais do baixo Guaporé e são Domingos. Após o
declínio do ciclo da borracha Zé Geraldo se instalou na cidade de Costa
Marques, abriu um pequeno comércio e criou sua família. Mas a vontade de ir
rever os parentes, (após 36 anos distante), não passava. Até que tomou a
decisão de empreender a tão sonhada viagem.
Procurou orientação com
algumas pessoas que lhe orientaram a ter os seguintes cuidados: viajar com o
dinheiro maior guardado em um calção por baixo da calça, dentro de um bolso
secreto; viajar sempre sentado na janela dos ônibus com o bolso do dinheiro
encostado na parede da janela; sempre que fosse indagado sobre o seu destino
era para informar que estava vindo da mais próxima e indo para a mais próxima
cidade; quando tivesse vontade de fazer necessidade durante a viagem, devia
procurar se acompanhar de outro passageiro; não se alimentar de comida
gordurosa, e outros cuidados.
E assim lá se foi o Zé Geraldo.
Porto Velho, Brasília, Fortaleza e finalmente a sua cidade natal Sobral. Lá
chegando, ele se valeu do mapa que tinha na cabeça, onde ainda estavam vivas as
lembranças da sua cidadezinha que deixara
para trás. Ainda lembrava o nome da rua que sua família morava na época em que
saiu de casa, mas eis que lá chegando, encontrou uma rua cheia de construções
grandes e justo no lugar da casa de sua infância, encontrou um prédio de seis andares. Parou embaixo
daquela construção, se dirigiu a uma farmácia que funcionava no térreo e
perguntou se conheciam alguns de seus irmãos. A resposta foi negativa.
Dirigiu-se ao outro lado da rua a uma panificadora e repetiu a pergunta. Negativa
foi a resposta. As pessoas que ele procurava não eram conhecidas daqueles
comerciantes. Dirigiu-se a uma estação
de radio e fez o anuncio procurando os irmãos. Aguardou, aguardou e ninguém apareceu.
Decepcionado, Zé Geraldo
resolveu jogar mais uma cartada: lembrou-se que uma irmã com quem ele se
comunicava quando chegou ao seringal, morava em Fortaleza, onde trabalhava em
bares na Praça da Estação. Pegou então um ônibus e rumou para Fortaleza. Alí
chegando dirigiu-se à tal praça onde foi de bar em bar indagando se alguém dava
notícia daquela sua irmã. Todos responderam em um só tom. Não a conheciam.
Decepcionado novamente, tomou
a decisão mais difícil: retornar para Rondônia. Rumou para a rodoviária, pegou
o primeiro ônibus e novamente o trajeto de volta: Fortaleza, Brasília, Goiânia,
Cuiabá, Porto Velho e Costa Marques. Foi a viagem mais longa de toda sua vida.
Carregava um peso muito grande nos ombros: a tristeza de não ter encontrado
ninguém, a decepção de ter trabalhado tanto e no fim da vida se achar sozinho
neste mundo.
Carregava ainda, um coração
apertado e uma garganta seca de não ter nem com quem desabafar. Passou todo um
filme pela sua cabeça: lembrou-se daquele dia ensolarado em que se despediu de
sua mãe e de seu velho pai de seus irmãos, prometendo ganhar dinheiro e
retornar para ajuda-los.
Era um rapazola,
bem-apessoado, com muitos sonhos, mas certamente não passava pela sua cabeça
que poderia estar viajando para se encarcerar em uma prisão perpétua.
Lembrava-se com uma certa nostalgia, do último aceno de sua querida mãe, de sua
prima Auxiliadora que lhe ensinara as primeiras letras do alfabeto e que teria
lhe recomendado:
- não deixe de me escrever,
Zezinho. E tenha cuidado com a sezão, com os tapuias e com as onças. Num se
esqueça de se apegar com São Francisco das Chagas, do Canindé toda noite antes
de dormir, rezando prá ele.
Ainda
se alembrava bem da sua casa de paredes de taipa, da rua esburacada, das
peladas que jogava com os outros garotos da rua, das recomendações de dona
Almerinda, sua querida mãezinha, lhe admoestando para não sujar a roupa e não
se machucar. Do seu pai, lembrava da figura austera, se balançando numa rede na
varanda da casa e lhe recomendando que tivesse cuidado com os perigos da região
amazônica.
Ao
passo que ia lembrando, as lágrimas iam escorrendo dos seus olhos e a tristeza
ia se apossando de seu coração. Sentiu-se como que um membro do corpo humano
que é cortado e atirado bem longe e que nunca mais voltará para o corpo. Cortava-lhe
o coração pensar que sua mãe e seu apaí
morreram sem uma única noticia sua, enquanto ele estava enfiado naquela maldita
floresta. E daquele dia até o final da
sua vida Zé Geraldo viveu em um constante desgosto.
E
isso aconteceu com muitos desses bravos nordestinos que foram ludibriados por
promessas de riquezas e dias faustos para si e para suas famílias, que,
castigadas pelas secas, se tornavam presas fáceis das trapaças de governos ao
longo dos séculos.
Fonte:
Testemunho pessoal do autor
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