quinta-feira, 27 de setembro de 2018

O desengano de um Arigó


Amazônia: Ciclo da Borracha
Lutas, sonhos e dramas humanos

Por: Professor Chagas

O desengano de um Arigó
Durante a Segunda Guerra Mundial a utilização de borracha em material bélico era essencial, e com a utilização em automóveis e demais aparelhos o consumo era muito alto. Nessa época os americanos tinham um estoque razoável, mas o avanço japonês na Ásia onde os ingleses tinham grandes concentrações de extração de borracha, causou um colapso mundial. Isso obrigou os planejadores militares a buscar alternativas para o fornecimento de borracha para suprir as necessidades dos aliados.
A principal saída foi a busca do material na América Latina, ou seja, na Amazônia. Foi nessa hora que entraram na história milhares de nordestinos que, acossados pela seca foram atraídos para a retirada de borracha para o governo atender aos americanos e também viram na promessa do governo uma possibilidade de riqueza.
Essa história é real e retrata o dilema que viveram os “ Soldados da Borracha”, jovens que foram recrutados no Nordeste para virem trabalhar para o governo federal na Amazônia extraindo leite de seringueira para o aquele governo cumprir compromissos com os Estados Unidos por ocasião da guerra mundial.
Todos eles tinham uma coisa em comum: a vontade de retornar à terra natal para rever os parentes que deixaram lá.
A grande maioria não conseguiu. Uns porque morreram ainda jovens de doenças tropicais ou mortos por animais silvestres, afogados, flechados por índios e outros porque nunca conseguiram juntar o dinheiro necessário para custear a viagem e, principalmente porque os patrões só liberavam se o camarada tirasse saldo. Ocorre que no regime de trabalho ao qual eles estavam submetidos, era quase impossível sobrar saldo no final do ano. O seringueiro se aviava no armazém do patrão que cobrava o preço que bem queria. Já na hora de entregar a borracha, o patrão pagava o que bem queria e normalmente enganava o trabalhador.
Dessa forma, o Arigó sempre ficava devendo ao patrão. E devendo ao patrão tinha que trabalhar mais para tentar zerar o débito. Mas aí o Arigó se afundava em mais dívidas. E os anos iam passando e a dívida do Arigó só aumentava. Alguns, porém, tiveram a sorte de trabalhar com patrões mais humanos e puderam até juntar um dinheirinho.
Foi o caso do Arigó Zé Geraldo, que trabalhou em seringais do baixo Guaporé e são Domingos. Após o declínio do ciclo da borracha Zé Geraldo se instalou na cidade de Costa Marques, abriu um pequeno comércio e criou sua família. Mas a vontade de ir rever os parentes, (após 36 anos distante), não passava. Até que tomou a decisão de empreender a tão sonhada viagem.
Procurou orientação com algumas pessoas que lhe orientaram a ter os seguintes cuidados: viajar com o dinheiro maior guardado em um calção por baixo da calça, dentro de um bolso secreto; viajar sempre sentado na janela dos ônibus com o bolso do dinheiro encostado na parede da janela; sempre que fosse indagado sobre o seu destino era para informar que estava vindo da mais próxima e indo para a mais próxima cidade; quando tivesse vontade de fazer necessidade durante a viagem, devia procurar se acompanhar de outro passageiro; não se alimentar de comida gordurosa, e outros cuidados.
E assim lá se foi o Zé Geraldo. Porto Velho, Brasília, Fortaleza e finalmente a sua cidade natal Sobral. Lá chegando, ele se valeu do mapa que tinha na cabeça, onde ainda estavam vivas as lembranças  da sua cidadezinha que deixara para trás. Ainda lembrava o nome da rua que sua família morava na época em que saiu de casa, mas eis que lá chegando, encontrou uma rua cheia de construções grandes e justo no lugar da casa de sua infância, encontrou  um prédio de seis andares. Parou embaixo daquela construção, se dirigiu a uma farmácia que funcionava no térreo e perguntou se conheciam alguns de seus irmãos. A resposta foi negativa. Dirigiu-se ao outro lado da rua a uma panificadora e repetiu a pergunta. Negativa foi a resposta. As pessoas que ele procurava não eram conhecidas daqueles comerciantes.  Dirigiu-se a uma estação de radio e fez o anuncio procurando os irmãos. Aguardou, aguardou e ninguém apareceu.
Decepcionado, Zé Geraldo resolveu jogar mais uma cartada: lembrou-se que uma irmã com quem ele se comunicava quando chegou ao seringal, morava em Fortaleza, onde trabalhava em bares na Praça da Estação. Pegou então um ônibus e rumou para Fortaleza. Alí chegando dirigiu-se à tal praça onde foi de bar em bar indagando se alguém dava notícia daquela sua irmã. Todos responderam em um só tom. Não a conheciam.
Decepcionado novamente, tomou a decisão mais difícil: retornar para Rondônia. Rumou para a rodoviária, pegou o primeiro ônibus e novamente o trajeto de volta: Fortaleza, Brasília, Goiânia, Cuiabá, Porto Velho e Costa Marques. Foi a viagem mais longa de toda sua vida. Carregava um peso muito grande nos ombros: a tristeza de não ter encontrado ninguém, a decepção de ter trabalhado tanto e no fim da vida se achar sozinho neste mundo.
Carregava ainda, um coração apertado e uma garganta seca de não ter nem com quem desabafar. Passou todo um filme pela sua cabeça: lembrou-se daquele dia ensolarado em que se despediu de sua mãe e de seu velho pai de seus irmãos, prometendo ganhar dinheiro e retornar para ajuda-los.
Era um rapazola, bem-apessoado, com muitos sonhos, mas certamente não passava pela sua cabeça que poderia estar viajando para se encarcerar em uma prisão perpétua. Lembrava-se com uma certa nostalgia, do último aceno de sua querida mãe, de sua prima Auxiliadora que lhe ensinara as primeiras letras do alfabeto e que teria lhe recomendado:
- não deixe de me escrever, Zezinho. E tenha cuidado com a sezão, com os tapuias e com as onças. Num se esqueça de se apegar com São Francisco das Chagas, do Canindé toda noite antes de dormir, rezando prá ele.
Ainda se alembrava bem da sua casa de paredes de taipa, da rua esburacada, das peladas que jogava com os outros garotos da rua, das recomendações de dona Almerinda, sua querida mãezinha, lhe admoestando para não sujar a roupa e não se machucar. Do seu pai, lembrava da figura austera, se balançando numa rede na varanda da casa e lhe recomendando que tivesse cuidado com os perigos da região amazônica.
Ao passo que ia lembrando, as lágrimas iam escorrendo dos seus olhos e a tristeza ia se apossando de seu coração. Sentiu-se como que um membro do corpo humano que é cortado e atirado bem longe e que nunca mais voltará para o corpo. Cortava-lhe o coração pensar que sua mãe e seu apaí  morreram sem uma única noticia sua, enquanto ele estava enfiado naquela maldita floresta.  E daquele dia até o final da sua vida Zé Geraldo viveu em um constante desgosto.
E isso aconteceu com muitos desses bravos nordestinos que foram ludibriados por promessas de riquezas e dias faustos para si e para suas famílias, que, castigadas pelas secas, se tornavam presas fáceis das trapaças de governos ao longo dos séculos.

Fonte: Testemunho pessoal do autor

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