Os
tesouros que foram para o fundo do rio
Essa
história faz parte da crônica do final do ciclo da borracha, quando muitos
seringalistas foram pegos de surpresa com a queda dos preços daquele produto e
não estavam preparados para fazerem a migração de seus capitais para outros
negócios. Muitos estabelecimentos espalhados pelas beiras dos rios da Amazônia
foram surpreendidos com o fim de um ciclo econômico e seus proprietários que
tinham feito verdadeiras fortunas astronômicas, de repente se viram sem saber o
que fazer.
Certamente
alguns que já tinham diversificado seus investimentos não sofreram tanto,
porém, aqueles que não prestaram atenção no enfraquecimento do negócio tiveram muitos
prejuízos e reagiram de formas distintas, como foi o caso do seringalista do
Guaporé Balbino Maciel.
Balbino
Maciel foi um dos poucos negros nativos do Guaporé que se tornou seringueiro.
Sendo de uma inteligência privilegiada e um refinado espírito empreendedor,
logo se tornou próspero produtor e comerciante, negociando com os alemães da
Bolívia e os ingleses de Manaus e Corumbá, amealhando riquezas.
Cuidadoso
com o preparo da sua descendência, mandou os filhos estudar em Londres e na Suíça.
Seu capital se acumulava conforme aumentava a produção e a cotação da borracha
subia no mercado internacional, do mesmo modo seu prestigio de empresário bem-sucedido
crescia em Corumbá, Manaus, Belém, Corumbá, Ribeiralta, Cochabamba e outras
localidades, centros produtores e de comercialização da borracha.
Porém,
quando começou o processo de desvalorização da borracha, Balbino Maciel,
percebendo o desastre econômico, foi ficando inquieto e triste, entrando numa
depressão profunda, até que numa noite escura e chuvosa, reuniu em várias arcas,
todo seu dinheiro, libra, ouro, seus objetos de valores e suas jóias pessoais e
de seus familiares, escolheu seus mais fiéis empregados, mandou-os colocar suas
arcas em duas grandes canoas, remarem até o meio do rio Guaporé e lançarem a
preciosa carga no caudal do rio.
No amanhecer daquele dia, encontraram Balbino
Maciel louco, totalmente demente e alheio ao que acontecia ao seu redor. A
notícia se espalhou rapidamente pela guaporelândia, Bolívia, Mato grosso e
Amazonas.
Inúmeros
foram os que se aventuraram, mergulhando nas aguas correntes do Guaporé, na
ânsia de encontrarem, as arcas de Balbino Maciel. Até hoje há os que que as
procuram, porém, o Guaporé escondeu para sempre os tesouros de Balbino Maciel.
Notas:
Em 1900 o látex da seringa já ganhava grande notoriedade no mundo e começaram
a ser descobertas diversas aplicações práticas. Francisco
Chianca, um dos seringalistas desbravadores da região do Rio Guaporé, que se instalou na região onde hoje é
Costa Marques em 1905, deixou relatos de que naquela época a região do Guaporé
era uma grande produtora de seringa e ali existiam inúmeros seringais.
Essa opulência econômica possibilitou a que o próprio Chianca se instalasse
à margem do Guaporé no lugar denominado Porto São Domingos, para trabalhar na
extração de lenha para o fornecimento às embarcações a vapor que trafegavam
pelo Rio Guaporé de Guajará-Mirim a Vila Bela de Santíssima Trindade-Mt., coletando
borracha e regateando outras mercadorias. Para isso Chianca contratava
trabalhadores ribeirinhos brasileiros e bolivianos.
Francisco Chianca narrou que devido à queda nos
preços da borracha pela depressão ocorrida no fim da Primeira Guerra Mundial, a
companhia que financiava os seringalistas se retirou da área, não deixando
outra opção, senão a fuga do lugar.
O poder da economia
da borracha brasileira sofreu grande declínio no início do século XX, quando
começou a concorrência promovida pelo látex explorado no continente asiático
pelos empresários holandeses e ingleses. O ápice da crise da seringa deu-se por
volta de 1920 levando à falência muitos seringalistas. O valor baixou e fez com
que muitos aviadores, como eram chamados os empresários que contratavam
seringueiros, vendessem toda a sua produção a valores muito inferiores aos
investidos.
A ocorrência deste
declínio e do golpe que os produtores da borracha sofreram pode ser creditada à
falta de estímulo do governo federal que não criou programas de desenvolvimento
e proteção aos produtores de borracha, pois já estava voltado para os interesses
econômicos dos cafeicultores.
Para completar, após
a Segunda Guerra Mundial, passou-se a adotar nos setores industriais, o uso de
uma borracha sintética, de produção mais rápida. A tecnologia desta borracha
fez com que a exploração de seringa diminuísse ainda mais.
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