sexta-feira, 10 de agosto de 2018

RONDÔNIA: Povoação e historias


Os tesouros que foram para o fundo do rio

Essa história faz parte da crônica do final do ciclo da borracha, quando muitos seringalistas foram pegos de surpresa com a queda dos preços daquele produto e não estavam preparados para fazerem a migração de seus capitais para outros negócios. Muitos estabelecimentos espalhados pelas beiras dos rios da Amazônia foram surpreendidos com o fim de um ciclo econômico e seus proprietários que tinham feito verdadeiras fortunas astronômicas, de repente se viram sem saber o que fazer.
Certamente alguns que já tinham diversificado seus investimentos não sofreram tanto, porém, aqueles que não prestaram atenção no enfraquecimento do negócio tiveram muitos prejuízos e reagiram de formas distintas, como foi o caso do seringalista do Guaporé Balbino Maciel.
Balbino Maciel foi um dos poucos negros nativos do Guaporé que se tornou seringueiro. Sendo de uma inteligência privilegiada e um refinado espírito empreendedor, logo se tornou próspero produtor e comerciante, negociando com os alemães da Bolívia e os ingleses de Manaus e Corumbá, amealhando riquezas.
Cuidadoso com o preparo da sua descendência, mandou os filhos estudar em Londres e na Suíça. Seu capital se acumulava conforme aumentava a produção e a cotação da borracha subia no mercado internacional, do mesmo modo seu prestigio de empresário bem-sucedido crescia em Corumbá, Manaus, Belém, Corumbá, Ribeiralta, Cochabamba e outras localidades, centros produtores e de comercialização da borracha.
Porém, quando começou o processo de desvalorização da borracha, Balbino Maciel, percebendo o desastre econômico, foi ficando inquieto e triste, entrando numa depressão profunda, até que numa noite escura e chuvosa, reuniu em várias arcas, todo seu dinheiro, libra, ouro, seus objetos de valores e suas jóias pessoais e de seus familiares, escolheu seus mais fiéis empregados, mandou-os colocar suas arcas em duas grandes canoas, remarem até o meio do rio Guaporé e lançarem a preciosa carga no caudal do rio.
No amanhecer daquele dia, encontraram Balbino Maciel louco, totalmente demente e alheio ao que acontecia ao seu redor. A notícia se espalhou rapidamente pela guaporelândia, Bolívia, Mato grosso e Amazonas.

Inúmeros foram os que se aventuraram, mergulhando nas aguas correntes do Guaporé, na ânsia de encontrarem, as arcas de Balbino Maciel. Até hoje há os que que as procuram, porém, o Guaporé escondeu para sempre os tesouros de Balbino Maciel.

Notas:
Em 1900 o látex da seringa já ganhava grande notoriedade no mundo e começaram a ser descobertas diversas aplicações práticas.  Francisco Chianca, um dos seringalistas desbravadores da região do Rio Guaporé, que se instalou na região onde hoje é Costa Marques em 1905, deixou relatos de que naquela época a região do Guaporé era uma grande produtora de seringa e ali existiam inúmeros seringais.
Essa opulência econômica possibilitou a que o próprio Chianca se instalasse à margem do Guaporé no lugar denominado Porto São Domingos, para trabalhar na extração de lenha para o fornecimento às embarcações a vapor que trafegavam pelo Rio Guaporé de Guajará-Mirim a Vila Bela de Santíssima Trindade-Mt., coletando borracha e regateando outras mercadorias. Para isso Chianca contratava trabalhadores ribeirinhos brasileiros e bolivianos.
Francisco Chianca narrou que devido à queda nos preços da borracha pela depressão ocorrida no fim da Primeira Guerra Mundial, a companhia que financiava os seringalistas se retirou da área, não deixando outra opção, senão a fuga do lugar.
O poder da economia da borracha brasileira sofreu grande declínio no início do século XX, quando começou a concorrência promovida pelo látex explorado no continente asiático pelos empresários holandeses e ingleses. O ápice da crise da seringa deu-se por volta de 1920 levando à falência muitos seringalistas. O valor baixou e fez com que muitos aviadores, como eram chamados os empresários que contratavam seringueiros, vendessem toda a sua produção a valores muito inferiores aos investidos.
A ocorrência deste declínio e do golpe que os produtores da borracha sofreram pode ser creditada à falta de estímulo do governo federal que não criou programas de desenvolvimento e proteção aos produtores de borracha, pois já estava voltado para os interesses econômicos dos cafeicultores.
Para completar, após a Segunda Guerra Mundial, passou-se a adotar nos setores industriais, o uso de uma borracha sintética, de produção mais rápida. A tecnologia desta borracha fez com que a exploração de seringa diminuísse ainda mais.

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