Esse
artigo trata das maiores imigrações nordestinas, que ocorreram nas últimas
décadas do século XIX quando a necessidade de matéria prima provocada pelo
grande desenvolvimento da Europa e dos Estados Unidos, despertou o mundo para
outro mundo de riquezas naturais escondido na floresta amazônica.
Simultaneamente
à calamidade climatérica – a seca – que em 1877 flagelou todo o nordeste
brasileiro, matando a lavoura e dizimando os rebanhos, compeliu os nordestinos
a emigrar para a Amazônia, em busca de trabalho e alimentos que o sol
causticante lhes negava na terra natal.
As
notícias exageradas de facilidade de crédito; a vida faustosa de alguns
seringalistas – os paroaras(negociantes do Pará), – que voltavam ao Nordeste,
ostentando riqueza; o rápido progresso das cidades de Belém e Manaus, de onde
partiam centenas de navios, transportando mercadorias para os seringais e
regressando com os porões abarrotados de borracha, cognominada “ouro negro” por sua crescente
valorização, tudo isso gerou uma euforia de esperança, alimentada pela boa-fé
dos pobres nordestinos, exaustos de sofrer nos sertões comburidos pela seca.
Assim,
as emigrações foram aumentando e, o que é pior, de maneira descontrolada, sem
qualquer caráter seletivo. Não importava o estado de saúde ou condições físicas
que assegurassem àquelas míseras criaturas um mínimo de sobrevivência no
ambiente estranho e insalubre que iam enfrentar. Enxotados pela seca, impelidos
pela esperança de dias melhores, embarcavam de qualquer modo, levando apenas a
rede e o que coubesse no baú.
Dentro
em pouco, essa lenta mas progressiva ocupação da floresta começou a provocar
protestos dos nossos vizinhos fronteiriços, que todavia, chamavam “Tierra no
descubierta” a vastíssima faixa situada além da chamada linha Cunha Gomes,
traçada do rio Madeira ao rio Javari.
A
verdade é que, embora sem intenção invasora, os nordestinos iam ocupando a cobiçada
região. Enquanto a Bolívia e o Peru reivindicavam sua posse, baseando-se em
tratados diplomáticos, outros poderosos fatores, de ordem geográfica, social e
econômica, justificavam sua integração ao Brasil.
Encravado
na fronteira brasileira, abrangendo as bacias de dois importantes afluentes do
Amazonas – os rios Juruá e Purus – o território em litígio era um pedaço
isolado da Bolívia e do Peru, mais acessível pelas nossas vias fluviais, rumo
ao oceano Atlântico, do que pelo tormentoso caminho dos Andes, que conduz ao
Pacífico.
A
esse motivo de ordem geográfica sobrepunha-se outro, muito mais ponderável e
humano, porque dizia respeito aos milhares de brasileiros que ali viviam e
trabalhavam, na extração da goma-elástica. A situação era bastante delicada.
Em
última análise, o problema se resumia em assegurar o direito de trabalho e
liberdade a uma população totalmente brasileira, localizada em território
reconhecidamente estrangeiro.
E
que espécie de população era essa?
Nordestinos,
na sua maioria cearenses. Sertanejos rústicos que não conheciam mapas nem
tratados internacionais, não distinguiam fronteiras nem queriam saber o motivo
porque o mundo fora dividido em países. Sabiam apenas que eram brasileiros e,
para eles, tudo aquilo era Brasil.
Com esse texto o autor de SAPUPEMA faz a introdução
de um dos mais impressionantes livros de contos amazônicos, focado na vida dos
soldados da borracha ou Arigós, que vieram para a Amazônia na ilusão de ganhar
muito dinheiro e retornar para o seio de suas famílias. Infelizmente a grande
maioria nunca conseguiu retornar. Tombaram nas florestas, nos rios, nas garras
das onças, nas pontas das flechas de índios, nos hospitais – vítimas de sezão,
malária, febre amarela, impaludismo e beri-beri.
Texto extraído do Livro SAPUPEMA
Contos Amazônicos.
Autor: Jornalista JOSÉ POTYGUAR
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