terça-feira, 10 de julho de 2018

Amazonia: Ciclo da Borracha

Crônica da imigração nordestina para a Amazônia

Esse artigo trata das maiores imigrações nordestinas, que ocorreram nas últimas décadas do século XIX quando a necessidade de matéria prima provocada pelo grande desenvolvimento da Europa e dos Estados Unidos, despertou o mundo para outro mundo de riquezas naturais escondido na floresta amazônica.

Simultaneamente à calamidade climatérica – a seca – que em 1877 flagelou todo o nordeste brasileiro, matando a lavoura e dizimando os rebanhos, compeliu os nordestinos a emigrar para a Amazônia, em busca de trabalho e alimentos que o sol causticante lhes negava na terra natal.

As notícias exageradas de facilidade de crédito; a vida faustosa de alguns seringalistas – os paroaras(negociantes do Pará), – que voltavam ao Nordeste, ostentando riqueza; o rápido progresso das cidades de Belém e Manaus, de onde partiam centenas de navios, transportando mercadorias para os seringais e regressando com os porões abarrotados de borracha, cognominada “ouro negro” por sua crescente valorização, tudo isso gerou uma euforia de esperança, alimentada pela boa-fé dos pobres nordestinos, exaustos de sofrer nos sertões comburidos pela seca.

Assim, as emigrações foram aumentando e, o que é pior, de maneira descontrolada, sem qualquer caráter seletivo. Não importava o estado de saúde ou condições físicas que assegurassem àquelas míseras criaturas um mínimo de sobrevivência no ambiente estranho e insalubre que iam enfrentar. Enxotados pela seca, impelidos pela esperança de dias melhores, embarcavam de qualquer modo, levando apenas a rede e o que coubesse no baú.

Dentro em pouco, essa lenta mas progressiva ocupação da floresta começou a provocar protestos dos nossos vizinhos fronteiriços, que todavia, chamavam “Tierra no descubierta” a vastíssima faixa situada além da chamada linha Cunha Gomes, traçada do rio Madeira ao rio Javari.

A verdade é que, embora sem intenção invasora, os nordestinos iam ocupando a cobiçada região. Enquanto a Bolívia e o Peru reivindicavam sua posse, baseando-se em tratados diplomáticos, outros poderosos fatores, de ordem geográfica, social e econômica, justificavam sua integração ao Brasil.

Encravado na fronteira brasileira, abrangendo as bacias de dois importantes afluentes do Amazonas – os rios Juruá e Purus – o território em litígio era um pedaço isolado da Bolívia e do Peru, mais acessível pelas nossas vias fluviais, rumo ao oceano Atlântico, do que pelo tormentoso caminho dos Andes, que conduz ao Pacífico.

A esse motivo de ordem geográfica sobrepunha-se outro, muito mais ponderável e humano, porque dizia respeito aos milhares de brasileiros que ali viviam e trabalhavam, na extração da goma-elástica. A situação era bastante delicada.

Em última análise, o problema se resumia em assegurar o direito de trabalho e liberdade a uma população totalmente brasileira, localizada em território reconhecidamente estrangeiro.

E que espécie de população era essa?

Nordestinos, na sua maioria cearenses. Sertanejos rústicos que não conheciam mapas nem tratados internacionais, não distinguiam fronteiras nem queriam saber o motivo porque o mundo fora dividido em países. Sabiam apenas que eram brasileiros e, para eles, tudo aquilo era Brasil.

Com esse texto o autor de SAPUPEMA faz a introdução de um dos mais impressionantes livros de contos amazônicos, focado na vida dos soldados da borracha ou Arigós, que vieram para a Amazônia na ilusão de ganhar muito dinheiro e retornar para o seio de suas famílias. Infelizmente a grande maioria nunca conseguiu retornar. Tombaram nas florestas, nos rios, nas garras das onças, nas pontas das flechas de índios, nos hospitais – vítimas de sezão, malária, febre amarela, impaludismo e beri-beri. 


Texto extraído do Livro SAPUPEMA 
Contos Amazônicos.
Autor: Jornalista JOSÉ POTYGUAR



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